Mensagem, Ministério do Acolhimento, Missão

Fraternidade ou Solidariedade?

Por Evaristo Eduardo de Miranda

Perguntaram a um rabino: – Por que os homens são todos diferentes? Por que não existem duas pessoas iguais? O rabino respondeu sem hesitar: – Porque são todos imagem e semelhança de Deus. O Batismo nos declara irmãos, filhos do mesmo Deus e nesse sentido, iguais a todos. Parece um paradoxo falar de alteridade dos semelhantes. Ninguém é inteiramente semelhante a nós. Ninguém é radicalmente estranho ou diferente de nós. Há sempre uma dose de identidade e de diferença. Todos os homens são filhos de um único Deus (Gn 5,1).

Numerosos ensinamentos bíblicos começam com a expressão “Se o teu irmão…”. A fraternidade é sempre apresentada como um fundamento do dever de justiça com relação a todos. Essa fraternidade original está no começo e realiza-se plenamente no final. “Que o teu irmão viva com você…” (Lv 25,36). Que ele viva ao teu lado, na mesma casa, na mesma classe, no mesmo trabalho, na mesma sociedade, no mesmo planeta.

Os deveres com relação ao próximo, nosso irmão, têm esse objetivo de fraternidade: que ele viva conosco. Aceito e não rejeitado, acolhido e não discriminado, ajudado e não explorado, amado e não esquecido. O termo fraternidade anda pouco utilizado na sociedade contemporânea. Fala-se mais de direitos, igualdade, respeito ou liberdade e menos de fraternidade.

A palavra da moda é solidariedade. Nesta Quaresma, uma Campanha da Solidariedade seria mais eficiente do que a da Fraternidade?

A fraternidade da tradição judaica e cristã é como uma imposição da consangüinidade. Ninguém pode ou tem como escapar. A solidariedade não se impõe como um fato da natureza, mas vêm de uma atitude pessoal, de uma iniciativa pessoal. Mesmo se em contato com muitos, o solidário é solitário. A solidariedade depende da boa ou da má vontade de cada um, diante de uma opção de atitude solidária. A solidariedade é no máximo uma obrigação moral relativa.

A exclusão é uma impossibilidade teórica quando a fraternidade define os vínculos entre os homens. O Batismo nos insere numa igualdade que brota da fraternidade. Em 2010, no Dia Mundial da Paz, o papa Bento XVI publicou a mensagem “Se queres a paz, cuida da criação”. Esse texto merece ser lido e refletido na Quaresma, durante a Campanha da Fraternidade. Para a Santa Sé devemos fomentar uma tomada de consciência do “forte elo que existe no nosso mundo globalizado e interconectado entre salvaguarda da criação e cultivo do bem da paz”; “se a família humana não souber fazer frente a estes novos desafios com um renovado sentido de justiça e de equidade social e de solidariedade internacional, corre-se o risco de semear a violência entre os povos e entre as gerações presentes e futuras”. Esta Campanha da Fraternidade nos convida a refletir sobre o desafio de vivermos como irmãos, cuidando da Criação, no mesmo planeta, sob o mesmo teto e o mesmo céu.

Fonte: A Tribuna – Órgão oficial da Arquidiocese de Campinas

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Um comentário em “Fraternidade ou Solidariedade?”

  1. Um terremoto jogou no chão algumas cidades no Japão.
    E o que restou destas cidades foi um entulho gigantesco, a dor da perda e a certeza de que alguma coisa precisa mudar no conceito de desenvolvimento. O olhar do mundo se viu em pânico ao constatar, em poucos minutos, a fragilidade humana diante das reações da natureza. A “ficha caiu” se ao menos pensamos que as leis da natureza não têm de andar no mesmo ritmo dos engenhos humanos. Nestas horas, o bom censo pede passagem. É difícil organizar, no mesmo pacote, o que sonhamos como progresso com a qualidade de vida que o planeta nos oferece. A euforia do progresso, juntamente com o espanto das novas tecnologias, torna o ser humano uma criança órfã de sua pressa em chegar não se sabe onde. A ânsia por novas informações, a velocidade que dita a qualidade do que recebemos como consumo, é o comando primordial e insano de nossa cultura. Antes de tudo, cada pessoa é obra prima de Deus que precisa de cuidados especiais para permanecer vivendo neste planeta. A natureza não pula etapas. Ela segue o ritmo que a lei de nosso Criador nos deixou.
    O Japão é uma ilha, um pequeno território que investe muito caro para se defender das surpresas da natureza. O japonês sabe que a solidariedade é o seu maior patrimônio diante de uma catástrofe. Eles reagem com espírito comunitário quando uma cidade é destruída. A sociedade japonesa pode ficar sem emprego, moradia, alimentos, mas a fé na reconstrução das cidades e da esperança é uma cultura natural. A solidariedade é um bem público. O Japão é um lírio que nasce e renasce de um solo bem cuidado.
    Com pouco território para cultivar a agricultura e dele retirar outras riquezas básicas, o Japão sobreviveu à custa de sua criatividade. O país é uma semente de mostarda que se renova em suas perdas e danos.
    Depois da segunda guerra mundial, quando o Japão parecia que iria sumir do mapa, governo e sociedade encontraram uma saída para levantar a nação: todo japonês, ao trabalhar oito horas por dia, receberia seis horas como salário. As outras duas horas trabalhadas seriam doadas ao governo. Foi o que aconteceu. E a nação se levantou sem que houvesse protestos, revoltas e incompreensões. Governo e sociedade se deram as mãos. Isso é o que eu chamo de santidade coletiva.
    Com o que aconteceu neste mês de março de 2011 no Japão, uma outra reação ocorreu no coração de cada pessoa que assistiu, pela televisão, o sepultamento daquelas cidades: a destruição do homem velho que vive enclausurado em seu egoísmo, e que não se importa com o estado de abandono em que vive o seu próximo.
    “O Japão é o país do sol nascente”.
    O Espírito Santo sopra onde quer. Ele se move para acolher, no amor e na justiça, aqueles que O procurarem.

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