Liturgia do Dia – 21/02/2016 (comentada)

Lucas 9, 28-36“Abrão dialogou com Deus, falou e ouviu sua Palavra.  Paulo nos garante que seremos glorificados em Cristo.  No Evangelho, o Pai apresenta o Filho: ‘Este é o meu filho, o Escolhido.  Escutem o que ele diz!’ .  E o Filho nos convida a subir a montanha com Ele para rezar.”

Primeira leitura:  Gênesis 15, 5-12; 17-18

Salmo Responsorial:  26

Segunda leitura:  Filipenses 3, 17-4-1

Evangelho:  Lucas 9, 28b-36

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As leituras de hoje tem, em si, inúmeros sinais bastante significativos, e por isso, importantes para nossa caminhada quaresmal.

O diálogo entre Abrão e o Senhor tem como pano de fundo a vida nômade, relatada por tradições patriarcais judaicas, com seus sonhos e esperanças de se encontrar uma terra fértil e, a construção de uma família numerosa, que não só perpetuasse a existência do clã, mas também se impusesse aos inimigos.

Abrão vive a experiência de estar diante de Deus neste cenário e lamenta-se por já em idade avançada não conseguir lograr êxito em sua busca.

O texto veterotestamentário para fins didáticos pode ser subdivido em três momentos:

1º – Inicia com a afirmação divina que garante a Abrão uma descendência numerosa e apresenta-o a como alguém que acolheu a promessa divina e isso fora considerado como a aceitação radical dos desígnios de Deus. Ato contínuo, fora também lhe prometida a terra, ou seja, a realização plena (descendência e terra) de seus sonhos e esperanças, surgindo o questionamento sobre como ter certeza de que iria possuí-la.

2º – A resposta é o chamado para que se inicie os preparativos do cerimonial da aliança, correspondente à tradição dos povos antigos, onde em meio aos animais partidos e suas metades dispostas frente-a-frente, os que subscreviam o pacto passavam entre elas e pronunciavam seu compromisso, estabelecendo para si uma maldição, caso não cumprissem o pactuado. Deus apresentou-se então como um braseiro fumegante que passou por entre os animais divididos.

3º – O texto bíblico confirma que a promessa de Deus está garantida, todavia, não diz se Abrão também passou entre os animais, o que configura que nada lhe foi exigido. A promessa de Deus é gratuita e incondicional.

Assim, somos convidados, já na primeira leitura, a observar que, não importa a nossa realidade de vida, devemos, tal qual Abrão, ter uma atitude de acolhida da Palavra (olhar para o céu!), com confiança absoluta em Deus, que para começar a agir só precisa que tenhamos fé, e nos coloquemos a caminho. No mais ele tudo fará.

A carta de São Paulo aos Filipenses, fora escrita quando estava preso.  É bem interessante observar os aspectos humanos dele a partir de sua conversão.  Mesmo em condição adversa e já ciente de seu fim, o Apóstolo dos Gentios seguia firme seu destino, não abandonava e procurava cuidar das comunidades construídas, exortando-os na fé e orientando-os na caminhada. 

Aqui, Paulo coloca-os em sobreaviso, em relação aos que falseiam e deturpam o Evangelho de Jesus para obter vantagens que pudessem satisfazer os seus interesses egoístas e egocêntricos, exigindo do Povo o cumprimento da Lei Mosaica, na tentativa de reduzir a mensagem de Cristo nas comunidades cristãs, que aderiram a proposta da Salvação, em Jesus Cristo.

Paulo destaca a condição da comunidade de Filipos, como cidadãos do céu, pois perseverando na fé, serão como Jesus, ressuscitados em corpo glorioso, em alusão ao evento da transfiguração, testemunhada por Pedro, João e Tiago.

Assim como Abrão fora conduzido a olhar para o céu, a comunidade de Filipos é convidada a fazer o mesmo: focar nas coisas futuras e permanentes, que só a promessa de Deus é capaz de satisfazer.

E é exatamente isso que a Transfiguração do Senhor representa, cheia de sinais que unem o Antigo Testamento e a Boa Nova, é o pré-anuncio da vitória da vida sobre a morte:

O Monte Tabor é uma montanha localizada na Galiléia que alcança 660 metros de altitude, e cuja a visão é a do relevo ondulado da região, o lago de Genezaré, o cimo nevado do monte Hermon, o monte Carmelo e o Mar Mediterrâneo, ou seja, tem uma vista privilegiada e pode ser contemplado de longe, também foi um local de acontecimentos importantes.

Segundo os relatos do Antigo Testamento, foi nas imediações do Tabor que Débora reuniu secretamente dez mil israelitas, sob o comando de Barac, que puseram em fuga o exército de Sisara ( Js 4, 4-24); os madianitas e amalecitas mataram os irmãos de Gedeão (Js 8, 18-19); e, uma vez conquistada a terra prometida, o monte delimitou as fronteiras entre as tribos de Zabulão, Issacar e Neftali (Js 19, 10-34), que o consideravam sagrado e ofereciam sacrifícios no seu cume (Dt 33, 19). O profeta Oseias combateu esse culto porque, no seu tempo, sem dúvida  era cismático e também idolátrico (Os 5, 1), e Jeremias compara-o com a supremacia de Nabucodonosor sobre os seus inimigos (Jr 46, 18); o salmista junta-o ao Hermon para simbolizar nos dois todos os montes da terra (Sal 89, 13).

Sob o ponto de vista da topografia, o Monte é composto de quatro fontes de água, que se unem formando o Rio Jordão,  principal responsável pelo abastecimento hídrico de Israel.

O Rio Jordão foi testemunha do Batismo de Jesus; da partilha de terras entre Abraão e Ló; em um de seus afluentes Jacó lutou com um misterioso homem até que fosse por ele abençoado; da atuação de Elias e Eliseu; da travessia do povo hebreu recém saído do Exílio, viabilizando a chegada na Terra Prometida.  Por tudo isso, a tradição cristã ao utilizar o expressão “cruzar o Jordão”, quer dizer: vencer a morte, através do batismo, e tornar-se uma nova criatura.  U um “detalhe” importante: O próprio Jesus é por João reconhecido como a fonte de água viva, no episódio de seu encontro com a Samaritana.

A presença de Pedro, Tiago e João na Transfiguração, é fundamentada a partir do Evangelho segundo Marcos 9, 1-13, que inicia com a garantia de Jesus que alguns dos que estavam com ele, num dos povoados de Cesaréia, não morreriam sem ter visto o Reino de Deus.

Como é do conhecimento comum, Pedro foi o apóstolo escolhido para construção da Igreja e para apascentar as ovelhas, Tiago fora o primeiro apóstolo mártir de Cristo, João, aquele que acompanhou Jesus até a morte de cruz, o que recebeu, a maternidade ofertada a toda a humanidade, através de si,  e que correra à frente do próprio Pedro, para constatar a novidade trazida por Maria Madalena. Era com eles que Jesus estava no Getsêmani, e foram eles os autorizados a estar com Jesus na ressurreição da filha de Jairo (Mc 5, 37).

Assim, podemos constatar que Pedro, Tiago e seu irmão João, gozavam de mais intimidade e comunhão com Jesus do que os demais.

É importante abrir um parêntese para dizer que Daniel narra, em sua profecia, uma visão apocalíptica do poder, glória e realeza eterna e indissolúvel de Jesus, que recebera do próprio Deus todos os povos, que o serviam, e que seria testemunhada por aqueles que guardavam intimidade e comunhão com o Senhor, e a quem estavam direcionadas a Lei e as Profecias de outrora.

O sono dos discípulos não difere do sono de Abrão, em ambas as situações revelam o abandono em Deus, ainda que com um toque de medo pelo que vai acontecer, natural da condição humana, o que que não quer dizer ausência de fé.

A construção das tendas, que fazem alusão a “Festa dos Tabernáculos” (ou Festa das Tendas), em que celebrava o êxodo, quando o povo habitava em tendas (sucá) no deserto, revelam a partir da forma como eram construídas, um aspecto ímpar, que devemos considerar: devem ter ao menos três paredes e um teto com ramos que permitem ver o céu.

A presença de Moisés  e Elias no evento da transfiguração do Senhor revela o mistério da fé proferida no Antigo Testamento. A Lei e o Profeta: ambos viram a glória de Deus (Ex 33, 18-23. 34,29-35) (1Reis 19), e agora direcionam o olhar para Jesus, apontando que é através dEle que salvação definitiva acontecerá, e dar-se-á na cruz, logo, é a Ele que se deve seguir (escutar). Assim, é possível afirmar que somente na glória de Cristo é que o Antigo Testamento pode ser compreendido em plenitude.

Na transfiguração, a natureza humana de Jesus fora envolvida pelo Espírito da Glória, tal qual profetizado por Daniel (por isso a importância de citá-lo), transparecendo a sua divindade e realeza, que se repetiu publicamente com a sua Ressurreição, e não por acaso falavam, Jesus, Moisés e Elias sobre sua paixão.

A glória de Cristo só pode ser compreendida por quem olha para o céu com fé, nutre a intimidade e a comunhão com Deus, e caminha até a cruz redentora, logo, a fé cristã só pode estar centralizada na cruz, pois somente quem a ama se alegrará no final dos tempos.

A Transfiguração  é para todos nós, que amamos a cruz, nutrimos a intimidade e a comunhão com Deus Trino, e temos fé, o penhor da também nossa, futura glorificação.

O Senhor é minha Luz e Salvação!

Michelle Neves – Ministra do Acolhimento

Bacharel em Teologia pelo ISCR – ArqRio

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