Liturgia do Dia – 03/04/2016 (comentada)

Apocalipse 1,9-11a. 12-13.17-19.jpg“Cristo ressuscitado, presente no centro da Comunidade, é fundamento de sua unidade, que faz superar conflitos a ser sacramento de paz e de reconciliação.”

Primeira leitura:  Atos dos Apóstolos 5, 12-16

Salmo Responsorial:  117

Evangelho:  Apocalipse 1,9-11a. 12-13.17-19

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Este é o Domingo da Oitava da Páscoa, ainda Dia mesmo da Ressurreição! Ainda escutamos os ecos do Dia santíssimo da Ressurreição: “Este é o Dia que o Senhor fez para nós! Este Domingo da Oitava, caríssimos, é de uma riqueza ímpar!

Durante todos os dias desta semana da Páscoa, não houve um sequer em que a Igreja não rezasse pelos seus filhinhos recém-nascidos, os seus neófitos! Hoje não é diferente! A Mãe católica, solícita pelos que nasceram em Cristo do ventre seu, da pia batismal, exorta-os com as palavras da Escritura: “Como crianças recém-nascidas, desejai o puro leite espiritual para crescerdes na salvação” (1Pd 2,2). Estas são as palavras da entrada da Missa de hoje, tal como o Missal Romano nos coloca. Mas, o cuidado não é somente com os recém-nascidos, os neófitos (neo-iluminados), mas com todos os que antes já eram cristãos e na Noite santa renovaram suas promessas batismais.

Daí a exuberante oração da Missa hodierna: “Que compreendamos melhor o Batismo que nos lavou, o Espírito que nos deu nova Vida e o Sangue que nos redimiu”. Tudo, aqui, recorda a Vida nova do Ressuscitado, que recebemos nos sacramentos da Iniciação Cristã: o Batismo que, dando-nos o Espírito para a remissão dos pecados, nos lavou do pecado original, mergulhando-nos na morte e ressurreição do Senhor; o Espírito de força com o qual fomos ungidos na Crisma, para testemunhar a nova Vida no Ressuscitado; e o Sangue da Eucaristia, na qual celebramos o mistério da nossa redenção, comungando com o Senhor cheio de Santo Espírito, na Sua morte e ressurreição!

Em outras palavras: “Pai Santo, Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, Deus e Pai fidelíssimo, que arrancaste Teu Filho do mar da Morte, dá-nos a graça, pelos sacramentos da Tua Igreja, nossa Mãe, de mergulhar cada vez mais, no mistério Daquele que morreu e ressuscitou!

Que o Batismo nos configure mais e mais ao Cristo morto e ressuscitado;
a santa Crismação dê-nos a força de viver nossa vocação na Comunidade cristã e testemunhar o Senhor vitorioso diante do mundo; e a Eucaristia nos faça participantes, nesta vida, da morte e ressurreição do Cordeiro imolado, até que nos sentemos à Sua Mesa no Reino imperecível!” – Eis o tom da presente liturgia!

Quanto às leituras, oito dias após a Ressurreição, “no primeiro dia depois do sábado” dos judeus, primeiro dia da nova criação, Dia do Senhor Ressuscitado, Dia dos cristãos reunidos em Igreja, Jesus entrou onde estavam os apóstolos. As portas fechadas não O impedem: ele está ressuscitado; Seu corpo é o mesmo da cruz, é material, concreto, mas, totalmente transfigurado pelo Espírito Santo, já não obedece às leis da química, da física, da matéria como a conhecemos… É matéria “espirituada”… Ele não mais pode ser visto, a não ser que Se faça ver, não pode ser reconhecido, a não ser que Se dê a conhecer, Ele não mais pode ser apreendido pelas estreitas categorias deste mundo; Ele, o homem Jesus, de corpo e alma humanos, entrou na plenitude da Divindade, foi totalmente divinizado!

Ele entra e coloca-Se no meio dos discípulos, no nosso meio! Ainda hoje, é assim que Ele faz; como está agora em cada Eucaristia, presidindo-a como sacerdote oferente e vítima ofertada! E Sua primeira palavra é Shalom, Paz! Depois, mostra-lhes as mãos e o lado! Dá a Paz e mostra o preço da Paz! A Paz, aqui, é a nossa reconciliação com Deus, o Pai: já não somos mais inimigos, malditos, distantes, já não mais “filhos da ira” (Ef 2,3): “O castigo que havia de nos trazer a paz caiu sobre Ele; pelas Suas feridas fomos curados” (Is 53,5). Nossa paz com Deus, conosco, com os irmãos e com toda a criação custou o sangue do Senhor nosso!

Depois, Ele afirma: “Como o Pai Me enviou, Eu também vos envio”. Como o Pai enviou o Filho? No Espírito Santo: no Espírito Ele Se fez homem; no Espírito que repousava sobre Ele, “passou fazendo o bem e curando a todos os que estavam em poder do Diabo” (Lc 4,18; At 10,38); no Espírito, foi ressuscitado!

“Como o Pai Me enviou, Eu também vos envio. Recebei o Espírito Santo!” É assim que, doravante, a Igreja dos discípulos deverá dirigir-se ao mundo: na força e na energia do Santo Espírito, que é dado como Espírito de paz, de perdão dos pecados, de reconciliação da humanidade com o Pai pelo Cristo: “A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem os não perdoardes, eles lhes serão retidos”.

Que nunca esqueçamos: é parte essencial da missão da Igreja anunciar e realizar, em Nome do Senhor Jesus, o perdão dos pecados, sobretudo no sacramento da Reconciliação! Quem nega isso, invalida o mandato de Cristo e cai em heresia! É uma nova criação que está começando com a Ressurreição do Senhor: Ele, o Homem Novo, no primeiro dia após o sábado dos judeus, nos renova no Batismo no Espírito e nos envia em missão! Como não recordar aqui as palavras de São Paulo? “Se alguém está em Cristo é uma nova criatura.

Passaram-se as coisas antigas; eis que tudo se fez uma realidade nova! Tudo isto vem de Deus, que nos reconciliou Consigo por Cristo e nos confiou o ministério da reconciliação.  Pois era Deus que em Cristo reconciliava o mundo Consigo” (2Cor 5,17ss). Finalmente, o Senhor nos convida à fé, a viver nesta fé profunda, serena, constante e entusiástica: “Bem-aventurados os que creram sem terem visto!”

Mas, hoje, é necessário dizer ainda mais! Hoje é Oitava da Páscoa! Não se pode ficar calado! “Não podemos deixar de falar no que vimos e ouvimos” (At 4,19) com os olhos e os ouvidos inundados pela fé!

Quem é este Cristo ressuscitado? O Apocalipse, na segunda leitura, nos deslumbra: no Domingo, Dia do Senhor Ressuscitado, Dia de Missa, Dia de escutar a Palavra e repartir o Pão, João, nosso irmão de fé, de tribulação e de esperança, foi arrebatado num êxtase. Viu e ouviu o Ressuscitado:

Sua voz era como a de trombeta; voz majestosa, divina, com todo poder no céu e na terra!
Sua túnica era comprida, como a dos sacerdotes; no peito, tinha uma faixa de ouro, própria dos reis.

Quem é Ele? “Eu sou o Primeiro e o Último, o Vivente. Estive morto, mas agora estou vivo para sempre. Eu tenho a chave da Morte e da região dos mortos!”

– Que imagem impressionante; que palavras de nos deixarem boquiabertos!

Olhai o nosso Jesus, o nosso Senhor! Vede bem em Quem pusestes a vossa esperança! Olhai a quem saudais na Sequência que cantamos antes do Evangelho: o Príncipe que estava morto e, agora, reina vivo, após um tremendo duelo com a Morte!

Irmãos, Irmãs, “Não tenhais medo!” Este mesmo Senhor, tão glorioso, tão triunfante, tão potente, tão vivo, está continuamente presente na Sua Igreja, que somos nós, pequena e frágil comunidade!

Hoje, a Igreja é tão humilhada, tão caluniada, tão mal compreendida e, até, tão injustiçada.
Hoje, nossas próprias fraquezas são colocadas aos quatro ventos, como um modo de desacreditar o Evangelho, desacreditando a Comunidade dos discípulos de Jesus… E, às vezes, nós somos mesmo culpados!

Hoje, muitos de nós são tentados a ceder ao mundo, a agradar ao mundo, pensando que assim se pode servir ao mundo! Esquecem que o serviço que prestamos ao mundo é dar-lhe o Evangelho do Cristo Senhor em toda a sua inteireza, sem descontos, sem máscaras, sem adocicamentos, sem falsificações ou simplificações! Cristo inteiro num Evangelho inteiro, forte, amoroso, exigente, consolador, libertador!

Mas, ante tudo isso, não tenhais medo! O Senhor está no nosso meio: “a Pedra que os pedreiros rejeitaram tornou-Se a Pedra Angular” da Igreja! Cristo atua entre nós, como atuou no início, por meio dos Apóstolos!

Que hoje não nos preocupemos com grandes milagres visíveis, úteis e necessários para despertar a fé nos inícios do cristianismo… Preocupemo-nos, isto sim, com os pequenos milagres, tão necessários para que o mundo creia: a nossa coerência de cristãos, a nossa união amorosa com o Cristo na oração e nos sacramentos, o nosso esforço de uma vida santa, a nossa união fraterna no Senhor! Eis os milagres úteis para os nossos dias, muito mais que os shows de curandeirismos que se veem por aí e que de cristão nada possuem, além do nome!

Irmãos, irmãs, renovemos nosso entusiasmo, nossa adesão a Cristo, nossa esperança Nele, tão fiel, tão presente entre os Seus!

Ouvimos Sua Palavra; vamos, no rito eucarístico, reconhecê-Lo, ao partir o Pão!
Mais um Domingo e, mais, uma vez, Ele Se coloca entre nós! Não sejamos incrédulos, mas fiéis! E que o nosso coração arda, mais uma vez, como o coração daqueles nossos dois irmãos no caminho de Emaús!

Irmãos, o Senhor ressuscitou verdadeiramente!

Ele estará conosco até a consumação dos séculos! Aleluia!

Dom Henrique Soares da Costa – Bispo de Palmares/PE

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