Liturgia do Dia – 04/08/2016

Lucas 14, 25-33“A sabedoria evangélica é o acolhimento que agrada a Deus.  O seguimento a Jesus é radical e pressupõe a renúncia de tudo, pois o discípulo deve estar livre para amar e servir os irmãos, sobretudo os marginalizados.”

Primeira leitura:  Sabedoria 9, 13-18

Salmo Responsorial:  89

Segunda leitura: Filemôn  9b, 10.12-17

Evangelho: Lucas 14, 25-33

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Meditação para o XXIII Domingo Comum

O “naquele tempo” do Evangelho que escutamos, prolonga-se neste tempo que se chama hoje. Quando a leitura litúrgica do Evangelho começa com “naquele tempo”, refere-se ao tempo bendito da presença do Senhor entre nós, nos dias da Sua carne, da Sua humilhação. Mas, “aquele tempo” inaugurou os últimos tempos, o tempo da salvação, que vivemos no hoje da nossa vida, até o Dia de Cristo no fim dos tempos.

Pois bem, “naquele tempo, grandes multidões acompanhavam Jesus”. Eram muitos os que O admiravam, muitos os que O escutavam, como hoje. Mas, Jesus voltando-se, lhes disse – e diz aos que O querem acompanhar hoje -, com toda franqueza, quais as condições para serem aceitos como Seus discípulos: “Se alguém vem a Mim, mas não se desapega e seu pai e sua mãe, sua mulher e seus filhos, seus irmãos e suas irmãs e até da sua própria vida, não pode ser Meu discípulo. Quem não carrega sua cruz e não caminha atrás de Mim, não pode ser Meu discípulo”.

É impressionante a sinceridade do Senhor nosso!
Olhemos bem que não são todos os que podem ser Seus discípulos!

É certo que todos são chamados, pois “o desejo de Deus é que todos se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2,4), mas também é certo que nem todos estão dispostos a escutar de verdade o convite do Senhor e a aceitar Suas exigências! Hoje, sobretudo, há tantos e tantos que desejam negociar, querem um abatimento na fé, um desconto nas exigências do Senhor – como se fosse possível domesticar o Evangelho…
E Jesus é claríssimo: Ele somente aceita como discípulo – somente pode ser Seu discípulo – quem se dispõe, com sinceridade, a caminhar atrás Dele, seguindo Seus passos no caminho!
É ele Quem dá as cartas, é Ele Quem dita as normas, é Ele Quem mostra o caminho e Quem diz o que é certo e o que é errado! É Ele o único Senhor da Igreja – da Sua Igreja!
Que palavra tão difícil para cada um de nós, para o mundo atual, que se julga maduro e sábio o bastante para fazer seu próprio caminho e até para julgar os caminhos de Deus! Quem assim age, permanecendo fechado em si mesmo – diz Jesus -, “não pode ser Meu discípulo!”

E o que é ser discípulo?
É colocar-se no caminho Dele,
é renunciar a decidir por si mesmo que rumo dar à sua vida, para seguir o caminho do Mestre, colocando os pés nos Seus passos;
ser discípulo é se renunciar para ser em Jesus,
pensando como Ele,
vivendo como Ele,
agindo como Ele…
Ser discípulo é fazer de Jesus o Tudo, o fundamento da própria existência: “Qualquer um de vós, se não renunciar a tudo que tem, a tudo que é, à sua própria segurança, ao seu próprio modo de pensar, não pode ser Meu discípulo!”

É preciso que compreendamos que esta exigência tão radical do Senhor não é por capricho, não é arbitrária, não é humilhante ou desumana para nós!
O Senhor é tão exigente porque nos quer libertar de nós mesmos, de nosso horizonte fechado e limitado à nossa própria razão, ao nosso próprio modo de ver e pensar as coisas e o mundo. O Senhor nos quer libertar da ilusão de que somos autossuficientes e sábios, de que somos deuses! Como têm razão, as palavras do Livro da Sabedoria: “Qual é o homem que pode conhecer os desígnios de Deus? Ou quem pode imaginar o desígnio do Senhor? Quem, portanto, investigará o que há nos céus?”
O homem, sozinho, é incapaz de compreender o mistério da vida, que somente é conhecido pelo coração de Deus! Isto valia para ontem, e continua valendo para hoje e valerá ainda para amanhã, mesmo com todo o desenvolvimento da ciência e com toda a ilusão de que nos bastamos a nós mesmos e podemos por nós mesmos decidir o que é certo e o que é errado! O homem, fechado em si mesmo, jamais poderá compreender de verdade o mistério de sua existência e o sentido profundo da realidade. É preciso ter a coragem de abrir-se, de ser discípulo, de seguir Aquele que veio do Pai para ser nosso Caminho, nossa Verdade e nossa Vida! “Na verdade, os pensamentos dos mortais são tímidos e nossas reflexões, incertas… Mal podemos conhecer o que há na terra e, com muito custo compreendemos o que está ao alcance de nossas mãos”. É por isso que o Salmista hoje nos faz pedir com humildade: “Ensinai-nos a contar os nossos dias, e dai ao nosso coração sabedoria!”

Só quando nos renunciarmos, só quando colocarmos o Senhor como o centro de nossa vida, do nosso modo de pensar e de agir, somente quando Ele for realmente o nosso Tudo, seremos discípulos de verdade. Então mudaremos de vida, de valores, de modo de agir. É o que São Paulo propõe a Filêmon, cristão, proprietário do escravo Onésimo. O Apóstolo recorda ao rico Filêmon que ser discípulo de Cristo comporta exigências e mudança de mentalidade: o escravo deve agora ser tratado como irmão no Senhor.
Não podemos ser cristãos, apegados à nossa lógica e às coisas próprias do homem velho!
Não podemos ser cristãos fazendo política como o mundo faz, tendo uma vida sexual como o mundo tem, pensando em questões como o divórcio, o aborto, o adultério como o mundo pensa, não podemos ser cristãos comportando-nos como o mundo se comporta e fazendo o que o mundo faz!
Querer seguir o Senhor sem deixar-se, sem colocá-lo como eixo e prumo da vida, é como construir uma torre sem dinheiro: não se chegará ao fim; é como ir para uma guerra sem exército suficiente: seremos derrotados! “Do mesmo modo, portanto, qualquer um de vós, se não renunciar a tudo que tem, não pode ser Meu discípulo!” – A Jesus Cristo temos de repetir sempre, com os lábios e com os atos, com as palavras e com a vida: “Só Vós sois o Santo, só Vós, o Senhor, só Vós, o Altíssimo, Jesus Cristo!”

Que o mundo não compreenda esta linguagem, é de se esperar… Afinal, o homem psíquico – homem entregue somente à sua própria razão – não pode mesmo compreender as coisas do Espírito de Deus (cf. 1Cor 2,14).
O triste mesmo é que os cristãos, isto é, nós, tenhamos a pretensão de ser discípulos sem procurar sinceramente nos renunciar, mortificando nossas tendências desordenadas, educando nossos instintos desatinados e deixando que a luz do Evangelho ilumine nossa razão e nosso modo de pensar, os nossos argumentos e raciocínios…

Cuidemos bem, para que, no fim de tudo, o nosso cristianismo não seja inacabado, tão inútil quanto uma torre deixada pela metade ou uma guerra na qual a derrota é certa.
Que nos valha a misericórdia de nosso Senhor e nos ajude a viver da Sua Palavra, porque, como disse hoje o Autor sagrado, dirigindo-se a Deus, “só assim se tornaram retos os caminhos dos que estão na terra e os homens aprenderam o que Te agrada, e pela Sabedoria foram salvos”.
Que nos salve o Cristo, Sabedoria de Deus! Amém.

Dom Henrique Soares da Costa – Bispo Diocesano de Palmares/PE

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