Liturgia do Dia – 02/10/2016

Lucas 17, 5-10“A justiça de Deus acontece na ação das pessoas retas e tementes a Ele.  É preciso ter fé, confiar no Senhor e alimentar nossa vida e nossa ação em sua Palavra. Assim vivemos os dons e enfrentamos os desafios.”

Primeira leitura:  Habacuc 1,2;2, 2-4

Salmo Responsorial:  94

Segunda leitura:  2Timóteo 1,6-8.13-14

Evangelho:  Lucas 17, 5-10

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Por Dom Henrique Soares da Costa (*)

Hoje, a Palavra de Deus nos coloca diante de um tema inquietante, o tema da fé. E o coloca com toda a dureza, nas palavras do profeta Habacuc. Ele viveu no final do século VII, início do século VI antes de Cristo. Reinava em Judá um rei iníquo, Joaquim; o povo já não cultivava amor pelo Senhor; imperava a injustiça, a impiedade, a imoralidade, a violência do grande contra o pequeno; o culto ao Senhor Deus, o Único, o Eterno, o Santo, era relativizado, fazendo com que muitos achassem que se podia servir ao Senhor e aos ídolos, servir ao Senhor fazendo concessões ao pecado, soas baals…

Diante desta situação tão triste, o profeta anunciava que os babilônios viriam e levariam o povo para o exílio. Seria a correção de Deus. Sim, Deus ama e, porque ama, castiga – ainda hoje Deus castiga! -, castigo de amor, para nos corrigir, para nos converter, para nos livrar da morte!

Mas, aí, o profeta entra em crise: Está certo que Judá merecia castigo; mas, por que Deus iria usar para castigar exatamente os babilônios, que eram um povo mais pecador e violento que os judeus? Por que o Santo usaria um povo pagão, idólatra para corrigir o Seu povo, a Sua herança amada?

O profeta angustia-se com esta incompreensível lógica do Senhor e, com dor e sinceridade sofrida, apresenta o seu protesto: “Senhor, até quando clamarei, sem me atenderes?
Até quando devo gritar a Ti: ‘Violência!’, sem me socorreres? Por que me fazes ver iniquidades, quando Tu mesmo vês a maldade?  Destruições e prepotência estão à minha frente”.

Em outras palavras: “Senhor, Tu não vês?

Será que não enxergas o tanto de pecado, de maldade, de perversidade?

Tu bem poderias resolver tudo!

Tu poderias corrigir o Teu povo de um modo mais lógico, mais compreensível para nós, pobres mortais!

Por que, ó Santo, ages deste modo?

Por que Teu agir e Tua lógica nos escapam?

Que Deus tão misterioso és!”

Crer não é compreender tudo. O profeta, que fala em nome de Deus, nem mesmo ele compreende totalmente o agir de Altíssimo, e se angustia, e pergunta, e chora: “Senhor, por que ages assim?

Por que Teus caminhos nos escapam deste modo?”

A verdade é que a fé não é uma realidade quieta e pacífica!

O próprio Jesus adverte que somente os violentos conquistam o Reino dos Céus (cf. Mt 11,12s); somente aqueles que lutam, que teimam em acreditar!

A fé é uma realidade que faz sangrar: sangrar na dor de tantas perguntas sem resposta, sangrar pelo sofrimento do inocente, pela vitória dos maus, pelo mal presente em tantas dimensões da nossa vida…

E Deus parece calar-Se!

Um filósofo ateu do século passado chegou a dizer, escandalizado com o sofrimento no mundo: “Se Deus existe, o mundo é Sua reserva de caça!”

Jó, usou palavras parecidas: “Também hoje minha queixa é uma revolta, porque Sua mão agrava os meus gemidos. Ele cobriu-me o rosto com a escuridão (23,2.17).

Que coisa: maior que o sofrimento, é o pesado silêncio do Altíssimo!

E, pesaroso, Jó se queixa de Deus: “Clamo por Ti, e não me respondes; insisto, e não Te importas comigo. Tu Te tornaste o meu carrasco e me atacas com Teu braço musculoso!” (30,20s).

Por que, Senhor? Por que Te calas?

Por que Teus caminhos nos são escondidos?

Por que parece que não Te importas conosco?

– Eis a dor que sangra das feridas dos crentes!

A resposta de Deus a Habacuc não explica, mas convida a crer novamente, a abandonar-se novamente, a teimar na perseverança: “Quem não é correto, vai morrer, mas o justo viverá por sua fé!’

Em outras palavras: ainda que agora tudo pareça confuso, ainda que neste tempo e neste mundo, tantas vezes as coisas pareçam sem lógica, há sim um juízo de Deus: o ímpio se perderá; o justo, o amigo do Senhor, viverá, graças à sua fidelidade!

Deus é assim: nunca nos explica, mas nos convida sempre à confiança renovada, ao abandono nas Suas mãos.

Mais uma vez, para que ninguém se iluda, pensando que pode barganhar com o Senhor: Quem não é correto, quem não se entrega nas mãos do Senhor, perderá a fé, morrerá, pois matará sua amizade com Deus… Mas o justo, o amigo de Deus, viverá, permanecerá firme pela sua fé total e confiante! O justo vive da fé!

É isto que é tão difícil para o homem de hoje, que tudo deseja enquadrar na sua razão e, quando não enquadra, se revolta e dá as costas a Deus e, assim, termina morrendo, porque viver sem Deus é a pior das mortes, o maior dos absurdos!

O justo vive da fé, vive na fé, vive abandonado nas mãos do Senhor, como dizem as palavras da Antífona de Entrada, que o missal coloca para a liturgia de hoje:
“Senhor, tudo está em Vosso poder, e ninguém pode resistir à Vossa vontade. Vós fizestes todas as coisas: o céu, a terra, e tudo o que eles contêm; sois o Deus do universo!” (Est 13,9.10-11).

Nunca esqueçamos: Deus não nos explica Seu modo de agir! Se o compreendêssemos, compreenderíamos o próprio Deus e, aí, já não seria o Deus verdadeiro, mas apenas um idolozinho!

Contudo, isso não significa que Deus não liga para nossa dor e para o nosso destino. Pelo contrário! Ele veio a nós, fez-Se um de nós, viveu nossa vida, suportou nossas dores, experimentou nossa morte!

Deus próximo, Deus de amor, Deus solidário!

Por isso, podemos olhar para Ele e, suplicantes, estender-Lhe as mãos, como os discípulos do Evangelho, que pediam: “Aumenta a nossa fé!” E Jesus responde – a eles e a nós – “Se vós tivésseis fé (em Mim), mesmo pequena como um grão de mostarda, poderíeis dizer a esta amoreira: ‘Arranca-te daqui e planta-te no mar’ e ela vos obedeceria”. Ou seja: se crermos de verdade Naquele amor que Se manifestou até a cruz, se crermos – aconteça o que acontecer – que Deus nos ama a ponto de entregar o Seu Filho, teremos a força de enfrentar todas as noites com a Sua luz, todos os pecados com a Sua graça, todas as mortes com a Sua Vida! Mas, se não crermos, pereceremos…

O que o Senhor espera dos Seus servos é esta fé total, incondicional, pobre e amorosa! É o que o Senhor espera de nós!

Mas, o que fazemos? Queremos recompensas, provas, certezas lógicas!

E, os mais cultos, vamos atrás de filosofias e sabedorias humanas;
e os mais incultos e tolos, vamos atrás de seitas, de descarregos, de exorcismos feitos por missionários de araques e pastores de si próprios, falsos profetas de um deus falso, feito de dízimos, moedas e gritarias…

O justo vive da fé!

Como nos exorta a segunda leitura, reavivamos a chama do Dom de Deus que recebemos!

“Deus não nos deu um espírito de timidez, de frouxidão, de covardia e incerteza, mas de fortaleza, de amor e sobriedade”. O Dom que Ele nos dá é o Espírito do Seu Filho bendito, recebido na Crisma como força, maturidade espiritual, energia para o testemunho na vida e na palavra!

Não nos envergonhemos do testemunho de nosso Senhor!

Guardemos aquilo que aprendemos de nossos antepassados, conservemos o “preciosos depósito” da nossa santa fé católica e apostólica, “com a ajuda do Espírito Santo que habita em nós” – para isto fomos confirmados com o santo óleo crismal.

Não corramos atrás das ilusões, fruto das invenções humanas!

É isto que o Senhor espera de nós, é este o nosso dever, é esta a nossa vocação, é esta a nossa glória. E, após termos agido assim, não achemos que temos algum direito diante de Deus. Humildemente, digamos: “Somos servos inúteis; fizemos o que devíamos fazer”.

Que o Senhor nos dê esta graça: a graça de viver e morrer na fé!
Que o Senhor nos conceda a recompensa dosa servos bons e fiéis! Amém!

(*) Bispo Diocesano de Palmares/PE

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