Liturgia do Dia – 23/06/2017

Mateus 11, 25-30“A Palavra é a voz do Senhor ressoando no meio de nós.  Deus nos escolheu em seu amor e dele nos vem a vida.  Seu amor infinito nos ampara e nos salva.”

Primeira leitura:  Deuteronômio 7, 6-11

Salmo Responsorial: 102

Segunda leitura:  1 João 4, 7-16

Evangelho:  Mateus 11,25-30

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Coração de Cristo, coração do mundo

Por Dom Henrique Soares da Costa, Bispo Diocesano de Palmares/PE

Hoje, a Igreja celebra a Solenidade do Coração do Cristo Jesus.  Trata-se de uma belíssima devoção, bíblica, profunda, de forte sentido para a vida cristã. Para não ficarmos numa devoção magra, anêmica, meramente individualista e sentimental, vejamos alguns aspectos mais teológicos desta invocação.

Na antropologia bíblica “coração” indica o interior do homem, a sede de seu caráter, de sua personalidade, ali onde nascem os pensamentos e sentimentos mais profundos. O coração é a sede das decisões do homem, é o núcleo mesmo da sua personalidade.

Dizer “coração” é referir-se ao homem como ser que reflete e toma decisões com conhecimento de causa. Em outras palavras: enquanto nas línguas modernas o coração é, sobretudo, o órgão dos afetos, na linguagem bíblica, o coração é, principalmente, o órgão do pensamento, da opção, da decisão, dos afetos medidos e comedidos: dizer que alguém não tem coração é dizer que não tem juízo, que não conhece os próprios pensamentos!

No salmo 85/86,11 o autor sagrado suplica: “Senhor, mostra-me Teu caminho e eu me conduzirei segundo a Tua vontade. Unifica meu coração para que ele tema o Teu Nome!” Sendo o coração órgão da decisão e da vontade, o salmista pede que ele seja unificado para Deus.

O sentido seria mais ou menos este: “Unifica-me a mim para Ti: que meus pensamentos estejam em Ti. Estando em Ti, como o eixo de minha vida, que eu seja inteiro, íntegro, senhor de mim. Assim, com um coração unificado, que eu possa estar todo inteiro diante de Ti, o Deus Um, todo inteiro dado a mim”.

Resumindo tudo isto: na antropologia bíblica, dizer coração é dizer “eu”: o meu coração é o meu eu!

Se assim é o coração humano, como se manifesta o Coração de Cristo?

Seu coração humano – Ele amou com um coração humano! – é imagem do Coração do Pai, de modo que podemos afirmar que o Coração de Deus se manifesta no Coração de Cristo: “Como o Pai Me amou, Eu também vos amei!”

Ora, em toda a Sua existência humana – no Seu ministério, nas Suas palavras, nos Seus milagres, nos Seus encontros com tantas pessoas diversas, nas Suas caminhadas pela Terra Santa -, Jesus revela o Coração do Pai… Basta pensar na parábola do filho pródigo, na qual Jesus procura explicar aos Seus adversários que age com amor e misericórdia porque o Pai faz o mesmo…

Portanto, no Coração compassivo, manso e sereno do Senhor Jesus, podemos entrever o quanto Deus é para nós ternura e carinho, acolhimento e perdão!

A Igreja compreendeu isto tão bem que coloca a seguinte antífona de entrada para a Missa do Coração de Jesus: “Eis os pensamentos do Seu Coração, que permanecem ao longo das gerações: libertar da morte todos os homens e conservar-lhes a vida em tempo de penúria” (Sl 31/32,11.19)

É este o pensamento, o projeto do Coração do Pai Eterno, manifestado no Coração de Jesus: libertar e dar a Vida!

Contemplar o Coração de Cristo, manso e humilde, aberto na cruz para que recebamos a água que nos vivifica e o sangue que nos lava, significa experimentar, crer e anunciar que Deus, o Pai de Jesus, é amor e fonte de amor.

Este anúncio é tanto mais urgente e necessário quanto mais vemos um mundo, o nosso, ferido de coração. Ou não é um mundo machucado pela incredulidade, pela banalização de todos os valores, pela destruição platina e sistemática de tudo quanto é sagrado, pela solidão, pela violência, a fome e a pobreza, este mundo nosso? Como é pobre, como é miserável um mundo que pensa que a maconha plenifica a vida, que a libertinagem sexual é expressão de liberdade e maturidade, que a destruição da família é um bem! Como é triste um mundo que esvaziou o sentido profundo e comprometido da palavra amor…

Por mais que muitos psicólogos tentem, não são eles quem salvarão a humanidade: somente o amor verdadeiro dá sentido a todas as coisas! E é precisamente isto que o Coração de Jesus revela: que Deus é Amor e fonte de amor, do amor que se dá, se entrega e, dando-se é pleno; o Coração do Cristo revela que a paternidade do Pai do Céu é cheia de compaixão e misericórdia e abraça todas as criaturas. Do Seu amor ninguém é excluído (a não ser que se exclua a si mesmo, fugindo de Deus), do Seu carinho ninguém é esquecido!

Quem dera que este mundo, que corre o risco de se tornar sem coração, mundo cão, encontre no Coração de Cristo o descanso, a inspiração e a paz! Quem dera que aceitasse o convite de Jesus, sempre atual e desafiador: “Vinde a Mim, vós todos os que estais cansados sob o peso o vosso farto e Eu vos darei descanso. Tomai sobre vós o Meu jugo e aprendei de Mim, porque sou manso e humilde de coração… E encontrareis descanso…” (Mt 11,28ss)

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