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O protagonismo do leigo na construção de uma sociedade mais cristã e fraterna

catecismo da igrejaO Catecismo da Igreja Católica define como leigo “todos os fiéis, que incorporados a Cristo pelo Batismo, constituídos em Povo de Deus e a seu modo feitos participantes da função sacerdotal, profética e régia de Cristo, exercem, em seu âmbito, a missão de todo o Povo cristão na Igreja e no mundo.”[1]

Assim, a Igreja destaca a importância de tantos fiéis que, mesmo não fazendo parte das Sagradas Ordens ou do estado religioso reconhecido pela Igreja, contribuem para o crescimento desta e para a santificação de toda a humanidade.

A vocação laical se diferencia da religiosa e sacerdotal na medida em que alcança horizontes mais longínquos e por isso é capaz de ordenar as coisas do mundo, de forma que estas se desenvolvam segundo os ensinamentos de Cristo e para o louvor do Criador e Redentor.[2]

Há, portanto, um fator que está acima da condição de ser leigo, que é o “ser Igreja” e o “sentir com a Igreja”, o que se caracterizada, podemos afirmar, não somente pela voluntária afirmação do que se é, mas pela ação ordenada, que se dirige para o fim último do Homem, o Reino de Deus.

Desta forma, a ação do leigo, fora e dentro das realidades sociais, inclusive digitais, é sempre positiva, nunca se inclina para o que subtrai ou divide, mas sempre soma e multiplica, potencializando a mensagem do amor de Deus, que promove a unidade da Igreja e a vida plena.

Todas as ações que não observam tais premissas, não podem e não devem ser consideradas próprias do leigo cristão católico e precisam ser reordenadas, segundo a didática do Redentor, que ama o pecador, mas não o pecado.

A Igreja nos ensina então que o protagonismo leigo se cristaliza portanto, através da sua participação no múnus sacerdotal, profético e régio de Cristo, cujo gérmen tem origem no batismo e que se fortalece no seio da sociedade.  Mas como isso acontece efetivamente?

Considerando que a causa pela qual o leigo vive é, e sempre será, a do Reino de Deus, o leigo deve se alinhar a essa premissa, abrindo-se à ação do Espírito para receber os frutos necessários para que todas as suas obras, preces, iniciativas apostólicas, vida conjugal e familiar, trabalho cotidiano, descanso do corpo e da alma, ou mesmo os sofrimentos pelos quais passarem, pacientemente suportados, sejam eficazes segundo o seu objetivo final.

Assim, como Cristo consagrou sua missão a Deus, através de sua vida, paixão e morte, o leigo é chamado, como diz São Pedro (1Pd 2,5), a tornar sua vida e obras “hóstias espirituais, agradáveis a Deus por Cristo”.

Pela graça de Deus, inúmeros foram os leigos que através de suas vidas expressaram essa realidade no meio de nós, e que hoje, reconhecidos como bem-aventurados, beatos ou mesmo santos, nos servem de inspiração.

Guido Shäffer, médico, surfista e seminarista, oferecia voluntariamente seus serviços profissionais aos mais pobres, sem deixar de viver a sua juventude através do esporte, e foram os testemunhos de amor a Deus, através do próximo, que o conduziu ao encontro da vocação sacerdotal;  Odetinha, mesmo menina, tinha uma vida de oração e caridade para com os mais necessitados, Zélia e Jerônimo, que mortos no início do século passado ainda inspiram tantos fiéis, tiveram vidas marcadas por uma profunda experiência de Deus, educando seus treze filhos na fé (nove seguiram ordem religiosas; quatro faleceram).

Tantos outros homens e mulheres leigos participaram do múnus Sacerdotal de Cristo, e apesar de não serem postulantes à beatificação, são reconhecidos por seu compromisso cristão, como por exemplo a Dra. Zilda Arns, médica e sanitarista que fundou a pastoral da criança, e que morreu em missão pastoral no Haiti, no ano de 2010.

E há ainda aqueles que estão bem próximos a nós, nas comunidades eclesiais, no ambiente do trabalho, ao lado de nossas casas e, os quais, sob a inspiração do Espírito, também nos chamam a acolher Cristo na dinâmica de nossa história.

A ação do leigos também pode corresponder ao múnus profético de Cristo, ao enaltecer a fé e testemunhar a graça, são capazes de promover grandes mudanças sociais.

A força da Palavra anunciada no contexto do dia-a-dia, para crentes e descrentes, é um remédio eficaz, para uma sociedade cada vez mais submersa no pecado, pois expressa o amor, edifica pessoas e ambientes, coloca Cristo no centro do mundo.

Aos que tem o dom do ensino, tal protagonismo também pode ser exercido através da formação catequética, do ensino das ciências sagradas.  No mesmo sentido, nos meios de comunicação social, o pronunciamento acerca das questões da Igreja, de acordo com a competência de cada um, é salutar, mas deve salvaguardar com mais afinco o fortalecimento da fé de seus interlocutores, os costumes, a doutrina e a devida reverência para com os pastores[3].

Importa destacar o quanto pode ser grandiosa a novidade das mídias digitais quando usadas ordenadamente para edificar a Igreja, inspirar ações, santificar homens e mulheres, ultrapassar fronteiras geográficas e existenciais, e com isso, prestar a Deus, na santidade de vida, o culto de adoração.

Ao desbravar as redes sociais, não nos pode fugir a imagem de São Paulo, que a partir da experiência de Cristo foi feito apóstolo dos gentios, anunciou o Ressuscitado, formou e acompanhou comunidades inteiras, levou a esperança e fortaleceu a fé de tantas pessoas que caminhavam “sem destino”.

Enfim, quantas oportunidades há hoje para levar a Palavra, quantas graças podem ser derramadas sobre a humanidade a partir da ação missionária desenvolvida pelos leigos mundo afora, com apenas um “clic”.

Mas o exercício do múnus profético requer maturidade e responsabilidade, pois o leigo que anuncia a si próprio, não salva nem ele mesmo.

É importante compreender que o anúncio da Palavra não comporta “achismos”, tampouco justificativas bíblicas, para desferir opiniões que não abarcam a Verdade de Cristo, e aqui o múnus régio tem o papel mais importante no protagonismo leigo.

A primeira experiência de Cristo, após o batismo, foi se permitir a tentação, e reafirmar a sua obediência e fidelidade ao desígnio de Deus e com isso deixar aos seus discípulos o ensinamento acerca do dom da liberdade, que vence o pecado.

Numa época em que o prazer, o poder e o sucesso seduzem tantas pessoas, especialmente os jovens, a liberdade régia vem nos ensinar que tudo isso se dissolve e, deixa de herança somente o pecado e o vazio existencial.

O remédio para tais mazelas mundanas é o exercício das virtudes, cujo exemplo contamina positivamente instituições, comunidades, lideranças e mesmo os ambientes onde Deus é ignorado e rejeitado.

O protagonismo leigo não está, portanto, no estardalhaço da popularidade que se distância da misericórdia, dos valores morais, das bem-aventuranças.

Se todas as formas de ação que se distanciam do exemplo de Cristo são fadas ao fracasso e a dor, posto que passageiras, o protagonismo do leigo está exatamente no caminho contrário:  na consciência de que Deus é absoluto e que tudo está sob o seu domínio.

Logo, a vida cristã não pode ser pautada pelo glamour do mundo, mas para o serviço do Reino, para a caridade, para o bem comum.

Por isso, é tão importante discernir sempre sobre nosso animus opperandi; se nossas ações contribuem para o crescimento da Igreja, para a nossa santificação e dos nossos semelhantes, ou são reflexo das nossas paixões; se seguimos os ensinamentos de Cristo ou agimos segundo nossos próprios pensamentos e vontades, ou pior, ao sabor do momento, sem qualquer reflexão sobre as consequências dos nossos atos; se temos apreço por ações ordenadas para o fim último dos homens, enfim, se agimos como testemunhas e instrumentos vivos dos desígnios de Deus, em Cristo.

É assim que o cristão leigo exerce o seu protagonismo no mundo!

Michelle Neves
PascomRio (Blogueiros Católicos) e
Ministra do Acolhimento

[1] CIC nº 897

[2] CIC nº 898

[3] CIC nº 907

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