Homilia de Bento XVI na Missa do Crisma de 2006

Brasao_BentoXVI

Queridos irmãos
no episcopado e no sacerdócio
Prezados irmãos e irmãs

A Quinta-Feira Santa é o dia em que o Senhor confiou aos Doze a tarefa sacerdotal de celebrar, no pão e no vinho, o Sacramento do seu Corpo e do seu Sangue, até à sua volta. O cordeiro pascal e todos os sacrifícios da Antiga Aliança são substituídos pela dádiva do seu Corpo e do seu Sangue, pelo dom de Si mesmo. Assim, o novo culto fundamenta-se no facto de que, em primeiro lugar, Deus nos oferece um dom e nós, repletos deste dom, tornamo-nos seus: a criação regressa ao Criador. Deste modo, também o sacerdócio se tornou algo de novo: já não é uma questão de descendência, mas um encontrar-se no mistério de Jesus Cristo. Ele é sempre Aquele que doa e, no alto, nos atrai a Si. Somente Ele pode dizer: “Isto é o meu Corpo isto é o meu Sangue”. O mistério do sacerdócio da Igreja encontra-se no facto de que nós, pobres seres humanos, em virtude do Sacramento, podemos falar com o seu Eu: in persona Christi. Ele quer exercer o seu sacerdócio através de nós. Este mistério comovedor, que em cada celebração do Sacramento volta a tocar-nos, nós recordamo-lo de maneira particular na Quinta-Feira Santa. A fim de que a vida quotidiana não desperdice o que é grande e misterioso, temos necessidade desta lembrança específica, precisamos de regressar à hora em que Ele impôs as suas mãos sobre nós e nos tornou partícipes deste mistério.

Por isso, voltemos a reflectir sobre os sinais em que o Sacramento nos foi concedido. No centro encontra-se o antiquíssimo gesto da imposição das mãos, com o qual Ele tomou posse de mim, dizendo-me: “Tu pertences-me”. Mas com isto disse também: “Tu estás sob a protecção das minhas mãos. Tu encontras-te sob a protecção do meu coração. Tu estás conservado na palma da minha mão e é precisamente assim que te encontras na vastidão do meu amor. Permanece no espaço das minhas mãos e dá-me as tuas”.

Além disso, recordemos que as nossas mãos foram ungidas com o óleo, que é o sinal do Espírito Santo e da sua força. Por que precisamente as mãos? A mão do homem é o instrumento do seu agir, é o símbolo da sua capacidade de enfrentar o mundo, exactamente de “o tomar pela mão”. O Senhor impôs as suas mãos sobre nós e agora quer as nossas mãos a fim de que, no mundo, se tornem suas. Deseja que elas não sejam mais instrumentos para tomar as coisas, os homens e o mundo para nós, para o reduzir à nossa posse mas, ao contrário, para que transmitam o seu toque divino, colocando-se ao serviço do seu amor. Quer que elas sejam instrumentos do serviço e, portanto, expressão da missão de toda a pessoa que se faz garante dele e que O transmite aos homens. Se as mãos do homem representam simbolicamente as suas faculdades e, em geral, a técnica como poder de dispor do mundo, então as mãos ungidas devem constituir um sinal da sua capacidade de doar, da criatividade no ato de plasmar o mundo com o amor e para isso, sem dúvida, temos necessidade do Espírito Santo. No Antigo Testamento, a unção é sinal da admissão para um serviço: o rei, o profeta, o sacerdote faz e dá mais do que aquilo que deriva da sua pessoa. De certo modo, é despojado de si próprio em função de um serviço, em que se põe à disposição de alguém que é maior do que ele. Se hoje Jesus se apresenta no Evangelho como o Ungido de Deus, como Cristo, então isto quer dizer precisamente que Ele age por missão do Pai e na unidade com o Espírito Santo e que, desta forma, entrega ao mundo uma nova realeza, um novo sacerdócio, um renovado modo de ser profeta que não busca a si mesmo, mas vive para Aquele em vista de quem o mundo foi criado. Hoje voltemos a colocar as nossas mãos à sua disposição e peçamos-lhe que nos tome novamente pelas mãos e que nos oriente.

No gesto sacramental da imposição das mãos por parte do Bispo foi o próprio Senhor que impôs as suas mãos sobre mim. Este sinal sacramental resume todo um percurso existencial. Uma vez, como aconteceu com os primeiros discípulos, encontramos o Senhor e ouvimos a sua palavra: “Segue-me!”. Talvez, inicialmente, O tenhamos seguido de maneira um pouco instável, olhando para trás e perguntando-nos se tal caminho era realmente o nosso. E numa certa altura do caminho, talvez tenhamos vivido a experiência de Pedro depois da pesca milagrosa, ou seja, talvez nos tenhamos assustado pela sua grandeza, pela enormidade da tarefa e pela insuficiência da nossa pobre pessoa, a ponto de desejarmos recuar: “Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador” (Lc 5, 8).

Mas em seguida, com grande bondade, Ele, pegou-nos pela mão, atraiu-nos a Si e disse-nos: “Não tenhas medo! Eu estou contigo. Não te deixo, mas também tu não me deixes!”. E, certas vezes, com cada um de nós talvez tenha acontecido a mesma coisa que aconteceu com Pedro quando, caminhando sobre as águas ao encontro do Senhor, repentinamente sentiu que a água não o sustentava e que estava prestes a afundar. E como Pedro, também nós bradamos: “Salva-me, Senhor!” (Mt 14, 30). Vendo a violência da natureza, como podíamos passar pelas águas ruidosas e espumosas do século passado e do último milênio? Mas então olhamos para Ele… e Ele agarrou-nos pela mão e atribuiu-nos um novo “peso específico”: a ligeireza, que deriva da fé e nos atrai rumo ao alto. E depois estende-nos a mão, que apoia e orienta. É Ele que nos sustenta.

Fixemos sempre de novo o nosso olhar nele e estendamos-lhe as mãos. Deixemos que a sua mão nos arrebate e assim não afundaremos, mas serviremos a vida, que é mais forte do que a morte; e o amor, que é mais vigoroso do que o ódio. A fé em Jesus, Filho do Deus vivo, é o instrumento através do qual sempre de novo tomamos a mão de Jesus e mediante o qual Ele toma as nossas mãos e nos orienta. Uma das minhas orações preferidas é a súplica que a liturgia coloca nos nossos lábios, antes da Comunhão: “…nunca permitas que eu me separe de ti”. Peçamos para jamais permanecermos fora da comunhão com o seu Corpo, com o próprio Cristo, para nunca ficarmos fora do mistério eucarístico. Peçamos que Ele jamais deixe a nossa mão…

O Senhor impôs as suas mãos sobre nós. E expressou o significado deste gesto com as seguintes palavras: “Já não vos chamo servos, visto que o servo não está ao corrente do que faz o seu senhor; mas a vós chamei-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi do meu Pai” (Jo 15, 15). Já não vos chamo servos, mas amigos: nestas palavras poder-se-ia chegar a ver a instituição do sacerdócio. O Senhor faz-nos seus amigos; confia-nos tudo; e confia-nos a Si mesmo, de tal modo que possamos falar com o seu Eu in persona Christi capitis. Que confiança!

Ele colocou-se realmente nas nossas mãos. Todos os sinais essenciais da Ordenação sacerdotal são, em última análise, manifestações desta palavra: a imposição das mãos; a entrega do livro da sua palavra, que Ele nos confia; a entrega do cálice, com o qual nos transmite o seu mistério mais profundo e pessoal. De tudo isto faz parte também o poder de absolver: Ele faz-nos participar inclusive na sua consciência, em relação à miséria do pecado e a toda a obscuridade do mundo, enquanto coloca nas nossas mãos a chave para reabrir a porta da casa do Pai. Já não vos chamo servos, mas amigos. Este é o profundo significado do ser sacerdote: tornar-se amigo de Jesus Cristo. Por esta amizade devemos renovar todos os dias o nosso compromisso. Amizade significa comunhão no pensamento e na vontade. Devemos exercitar-nos nesta comunhão de pensamento com Jesus, diz-nos São Paulo na Carta aos Filipenses (cf. 2, 2-5). E esta comunhão de pensamento não é algo unicamente intelectual, mas sim comunhão dos sentimentos e da vontade e, por conseguinte, também do agir. Isto significa que devemos conhecer Jesus de modo cada vez mais pessoal, ouvindo-O, vivendo juntamente com Ele, permanecendo ao seu lado. Ouvi-lo na lectio divina, ou seja, lendo a Sagrada Escritura de uma forma não acadêmica, mas espiritual; assim aprendemos a encontrar Jesus presente que nos fala. Devemos raciocinar e refletir sobre as suas palavras e o seu agir diante dele e com Ele. A leitura da Sagrada Escritura é oração, deve ser oração deve emergir da oração e conduzir à oração. Os Evangelistas dizem-nos que o Senhor durante noites inteiras se retirava reiteradamente “no monte” para rezar sozinho. Também nós temos necessidade deste “monte”: trata-se da altura interior que devemos escalar, o monte da oração. É somente assim que a amizade se desenvolve. Só deste modo podemos realizar o nosso serviço presbiteral, somente assim podemos anunciar Cristo e o seu Evangelho aos homens. O simples ativismo pode chegar a ser heroico. Mas se não nascer da profunda e íntima comunhão com Cristo, no final de contas o agir exterior permanecerá infecundo e perderá a sua eficácia. O tempo que dedicamos a isto é verdadeiramente um tempo de atividade pastoral, de um serviço autenticamente pastoral. O sacerdote deve ser sobretudo um homem de oração. No seu ativismo frenético, o mundo perde com frequência a orientação. O seu agir e as suas capacidades serão destruidores, se definharem as forças da oração, das quais brotam as águas da vida, capazes de fecundar a terra árida.

Já não vos chamo servos, mas amigos. O núcleo do sacerdócio é o facto de sermos amigos de Jesus Cristo. Somente assim podemos falar verdadeiramente in persona Christi, embora a nossa distância interior de Cristo não possa comprometer a validade do Sacramento. Ser amigo de Jesus, ser sacerdote, significa ser homem de oração. É deste modo que O reconhecemos e saímos da ignorância dos simples servos. Assim aprendemos a viver, a sofrer e a agir com Ele e por Ele. A amizade com Jesus é, por antonomásia, sempre amizade com os seus. Só podemos ser amigos de Jesus na comunhão com Cristo inteiro, com a cabeça e o corpo; na videira exuberante da Igreja, animada pelo seu Senhor. Somente nela a Sagrada Escritura é, graças ao Senhor, Palavra viva e atual. Sem o sujeito vivo da Igreja, que abraça todas as épocas, a Bíblia fragmenta-se em escritos frequentemente heterogêneos e assim torna-se um livro do passado. Ela só é eloquente no presente, onde há a “Presença” onde Cristo permanece nosso contemporâneo: no corpo da sua Igreja.

Ser sacerdote significa tornar-se amigo de Jesus Cristo, e isto cada vez mais com toda a nossa existência. O mundo tem necessidade de Deus não de um deus qualquer, mas do Deus de Jesus Cristo, do Deus que se fez carne e sangue, que nos amou a ponto de morrer por nós, que ressuscitou e criou em Si mesmo um espaço para o homem. Este Deus deve viver em nós, e nós nele. Esta é a nossa vocação sacerdotal: somente deste modo o nosso agir presbiteral pode dar fruto. Gostaria de concluir esta homilia com uma palavra de Andrea Santoro, daquele sacerdote da Diocese de Roma, que foi assassinado em Trebizonda enquanto rezava; o Cardeal Cè transmitiu-a a nós durante os Exercícios espirituais. A palavra diz: “Encontro-me aqui para habitar no meio deste povo e permitir que Jesus o faça, emprestando-lhe a minha carne… só nos tornamos capazes de salvação, oferecendo o nosso próprio corpo. Temos que suportar o mal do mundo e compartilhar o sofrimento, absorvendo-os no nosso corpo até ao fim, como fez Jesus”. Jesus assumiu a nossa carne. Entreguemos-lhe a nossa para que, deste modo, Ele possa vir ao mundo e transformá-lo. Amém!

Homilia do Papa Francisco por ocasião da Santa Missa Crismal

brasão-papa_-Francisco

SANTA MISSA CRISMAL

HOMILIA DO PAPA FRANCISCO

Basílica Vaticana
Quinta-feira Santa, 24 de Março de 2016

Na sinagoga de Nazaré, ao escutarem dos lábios de Jesus – depois que Ele leu o trecho de Isaías – as palavras «cumpriu-se hoje mesmo este passo da Escritura que acabais de ouvir» (Lc 4, 21), poderia muito bem ter irrompido uma salva de palmas; em seguida, com íntima alegria, teriam podido chorar suavemente como chorava o povo quando Neemias e o sacerdote Esdras liam o livro da Lei, que tinham encontrado ao reconstruir as muralhas. Mas os Evangelhos dizem-nos que os sentimentos surgidos nos conterrâneos de Jesus situavam-se no lado oposto: afastaram-No e fecharam-Lhe o coração. Ao princípio, «todos davam testemunho em seu favor e se admiravam com as palavras repletas de graça que saíam da sua boca» (Lc 4, 22); mas depois uma pergunta insidiosa começou a circular entre eles: «Não é este o filho de José, o carpinteiro?» E, por fim, «encheram-se de furor» (Lc 4, 28); queriam precipitá-Lo do cimo do penhasco… Cumpria-se assim aquilo que o velho Simeão profetizara a Nossa Senhora: será «sinal de contradição» (Lc 2, 34). Com as suas palavras e os seus gestos, Jesus faz com que se revele aquilo que cada homem e mulher traz no coração.

E precisamente onde o Senhor anuncia o evangelho da Misericórdia incondicional do Pai para com os mais pobres, os mais marginalizados e oprimidos, aí somos chamados a escolher, a «combater o bom combate da fé» (1 Tim 6, 12). A luta do Senhor não é contra os seres humanos, mas contra o demónio (cf. Ef 6, 12), inimigo da humanidade. Assim o Senhor, «passando pelo meio» daqueles que queriam liquidá-Lo, «seguiu o seu caminho» (cf. Lc 4, 30). Jesus não combate para consolidar um espaço de poder. Se destrói recintos e põe as seguranças em questão, é para abrir uma brecha à torrente da Misericórdia que deseja, com o Pai e o Espírito, derramar sobre a terra. Uma Misericórdia que move de bem para melhor, anuncia e traz algo de novo: cura, liberta e proclama o ano de graça do Senhor.

A Misericórdia do nosso Deus é infinita e inefável; e expressamos o dinamismo deste mistério como uma Misericórdia «sempre maior», uma Misericórdia em caminho, uma Misericórdia que todos os dias procura fazer avançar um passo, um pequeno passo mais além, avançando na terra de ninguém, onde reinavam a indiferença e a violência.

Foi esta a dinâmica do bom Samaritano, que «usou de misericórdia» (cf. Lc 10, 37): comoveu-se, aproximou-se do ferido, faixou as suas feridas, levou-o para a pousada, pernoitou e prometeu voltar para pagar o que tivessem gasto a mais. Esta é a dinâmica da Misericórdia, que encadeia um pequeno gesto noutro e, sem ofender nenhuma fragilidade, vai-se alargando aos poucos na ajuda e no amor. Cada um de nós, contemplando a própria vida com o olhar bom de Deus, pode fazer um exercício de memória descobrindo como o Senhor usou de misericórdia para connosco, como foi muito mais misericordioso do que pensávamos, e assim encorajar-nos a pedir-Lhe que faça um pequeno passo mais, que Se mostre muito mais misericordioso no futuro. «Mostrai-nos, Senhor, a vossa misericórdia» (Sal 85/84, 8). Esta forma paradoxal de suplicar um Deus sempre mais misericordioso ajuda a romper aqueles esquemas estreitos onde muitas vezes acomodamos a superabundância do seu Coração. Faz-nos bem sair dos nossos recintos, porque é próprio do coração de Deus transbordar de misericórdia, inundar, espalhando de tal modo a sua ternura que sempre abunde, porque o Senhor prefere ver alguma coisa desperdiçada antes que faltar uma gota, prefere que muitas sementes acabem comidas pelas aves em vez de faltar à sementeira uma única semente, visto que todas têm a capacidade de dar fruto abundante, ora 30, ora 60, e até mesmo 100 por uma.

Como sacerdotes, somos testemunhas e ministros da Misericórdia cada vez maior do nosso Pai; temos a doce e reconfortante tarefa de a encarnar como fez Jesus que «andou de lugar em lugar, fazendo o bem e curando» (At 10, 38), de mil e uma maneiras, para que chegue a todos. Podemos contribuir para inculturá-la, a fim de que cada pessoa a receba na sua experiênciapessoal de vida e possa, assim, compreendê-la e praticá-la – de forma criativa – no modo de ser próprio do seu povo e da sua família.

Hoje, nesta Quinta-feira Santa do Ano Jubilar da Misericórdia, gostaria de falar de dois âmbitos onde o Senhor Se excede na sua misericórdia. E, uma vez que é Ele quem dá o exemplo, não devemos ter medo de nos excedermos nós também: um âmbito é o do encontro; o outro, o do seu perdão que nos faz envergonhar e nos dá dignidade.

O primeiro âmbito onde vemos que Deus Se excede numa Misericórdia cada vez maior, é o do encontro. Ele dá-Se totalmente e de um modo tal que, em cada encontro, passa diretamente à celebração duma festa. Na parábola do Pai Misericordioso, ficamos estupefactos ao ver aquele homem que corre, comovido, a lançar-se ao pescoço de seu filho; vendo como o abraça e beija e se preocupa por lhe pôr o anel que o faz sentir-se igual, e as sandálias próprias de quem é filho e não um assalariado; e como, em seguida, põe tudo em movimento, mandando que se organize uma festa. Ao contemplarmos, sempre maravilhados, esta superabundância de alegria do Pai, a quem o regresso do filho consente de expressar livremente o seu amor, sem hesitações nem distâncias, não devemos ter medo de exagerar no nosso agradecimento. A justa atitude, podemos apreendê-la daquele pobre leproso que, vendo-se curado, deixa os seus nove companheiros que vão cumprir o que ordenou Jesus e regressa para se ajoelhar aos pés do Senhor, glorificando e dando graças a Deus em alta voz.

A misericórdia restaura tudo e restitui as pessoas à sua dignidade originária. Por isso, a justa resposta é uma efusiva gratidão: é preciso iniciar imediatamente a festa, vestir o traje, eliminar os ressentimentos do filho mais velho, alegrar-se e festejar… Porque só assim, participando plenamente naquele clima festivo, será possível depois pensar bem, pedir perdão e ver mais claramente como se pode reparar o mal cometido. Pode fazer-nos bem questionarmo-nos: depois de me ter confessado, festejo? Ou passo rapidamente para outra coisa, como quando, depois de ter ido ao médico, vemos que as análises não deram um resultado assim tão ruim e fechamo-las de novo no envelope, e passamos a outra coisa. E, quando dou esmola, deixo tempo a quem a recebe para expressar o seu agradecimento, festejo o seu sorriso e aquelas bênçãos que nos dão os pobres, ou continuo apressado com as minhas coisas depois de «ter deixado cair a moeda»?

O outro âmbito onde vemos que Deus excede numa Misericórdia cada vez maior, é o próprio perdão. Não só perdoa dívidas incalculáveis, como fez com o servo que lhe suplica e, em seguida, se mostra mesquinho com o seu companheiro, mas faz-nos passar diretamente da vergonha mais envergonhada para a dignidade mais alta, sem qualquer etapa intermédia. O Senhor deixa que a pecadora perdoada Lhe lave, familiarmente, os pés com as suas lágrimas. Logo que Simão Pedro se confessa pecador pedindo-Lhe para Se afastar dele, Jesus eleva-o à dignidade de pescador de homens. Nós, ao contrário, tendemos a separar as duas atitudes: quando nos envergonhamos do pecado, escondemo-nos e caminhamos com os olhos em terra, como Adão e Eva, e, quando somos elevados a qualquer dignidade, procuramos cobrir os pecados e gostamos de nos mostrar, de quase nos pavonearmos.

A nossa resposta ao perdão superabundante do Senhor deveria consistir em manter-nos sempre naquela saudável tensão entre uma vergonha dignificante e uma dignidade que sabe envergonhar-se: atitude de quem procura, por si mesmo, humilhar-se e abaixar-se, mas é capaz de aceitar que o Senhor o eleve para benefício da missão, sem se comprazer. O modelo que o Evangelho consagra e nos pode ser útil quando nos confessamos é o de Pedro, que se deixa interrogar longamente sobre o seu amor e, ao mesmo tempo, renova a sua aceitação do ministério de apascentar as ovelhas que o Senhor lhe confia.

Para entrar mais profundamente nesta «dignidade que sabe envergonhar-se», que nos salva de nos crermos mais ou menos do que somos por graça, pode-nos ajudar ver que – na passagem de Isaías, que o Senhor lê hoje na sua sinagoga de Nazaré – o profeta continua dizendo: «E vós sereis chamados “sacerdotes do Senhor”, e nomeados “ministros do nosso Deus”» (61, 6). É o povo pobre, faminto, prisioneiro de guerra, sem futuro, um resto descartado, que o Senhor transforma em povo sacerdotal.

Nós, como sacerdotes, identifiquemo-nos com aquele povo descartado, que o Senhor salva, e lembremo-nos de que existem multidões inumeráveis de pessoas pobres, ignorantes, prisioneiras, que estão naquela situação porque outros as oprimem. Mas lembremo-nos também de que cada um de nós sabe em que medida tantas vezes somos cegos, estamos privados da luz maravilhosa da fé, e não porque nos falte o Evangelho ao alcance da mão, mas por um excesso de teologias complicadas. Sentimos que a nossa alma morre sedenta de espiritualidade, e não por falta de Água Viva – que nos limitamos a sorver aos goles – mas por um excesso de espiritualidades sem compromisso, espiritualidades superficiais. Sentimo-nos também prisioneiros, não cercados – como tantos povos – por muros intransponíveis de pedra ou barreiras de aço, mas por um mundanismo virtual que se abre e fecha com um simples clique. Somos oprimidos, não por ameaças e empurrões, como muitas pessoas pobres, mas pelo fascínio de mil e uma propostas de consumo a que não conseguimos renunciar para caminhar, livres, pelas sendas que nos conduzem ao amor dos nossos irmãos, ao rebanho do Senhor, às ovelhas que aguardam pela voz dos seus pastores.

E Jesus vem resgatar-nos, fazer-nos sair, para nos transformar de pobres e cegos, de prisioneiros e oprimidos em ministros de misericórdia e consolação. Diz-nos Ele, com as palavras do profeta Ezequiel ao povo que se prostituíra, traindo gravemente o seu Senhor: «Eu lembrar-Me-ei da minha aliança que fiz contigo no tempo da tua juventude (…). Ao recordares a tua conduta, sentirás vergonha, quando receberes as tuas irmãs, as que são mais velhas e as que são mais novas do que tu, pois Eu dou-tas como filhas, mas não em virtude da tua aliança. Porque Eu estabelecerei contigo a minha aliança e, então, saberás que Eu sou o Senhor, a fim de que te lembres de Mim e sintas vergonha, não abras mais a boca no meio da tua confusão, quando Eu te perdoar tudo o que fizeste – oráculo do Senhor Deus» (Ez 16, 60-63).

Neste Ano Jubilar, celebremos, com toda a gratidão de que seja capaz o nosso coração, o nosso Pai e supliquemos-Lhe que «Se recorde sempre da sua Misericórdia»; recebamos, com aquela dignidade que sabe envergonhar-se, a Misericórdia na carne ferida de nosso Senhor Jesus Cristo, e peçamos-Lhe que nos lave de todo o pecado e livre de todo o mal; e, com a graça do Espírito Santo, comprometamo-nos a comunicar a Misericórdia de Deus a todos os homens, praticando as obras que o Espírito suscita em cada um para o bem comum de todo o povo fiel de Deus.

 

Catequese do Papa Francisco – 23/03/2016

brasão-papa_-Francisco

CATEQUESE
Praça São Pedro – Vaticano
Quarta-feira, 23 de março de 2016

 

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

A nossa reflexão sobre misericórdia de Deus nos introduz hoje ao Tríduo Pascal. Viveremos a Quinta, a Sexta e o Sábado santo como momentos fortes que nos permitem entrar sempre mais no grande mistério da nossa fé: a Ressurreição do nosso Senhor Jesus Cristo. Tudo, nestes três dias, fala de misericórdia, porque torna visível até onde pode chegar o amor de Deus. Escutaremos o relato dos últimos dias da vida de Jesus. O evangelista João nos oferece as chaves para compreender o sentido profundo disso: “Tendo amado os seus que estavam nesse mundo, amou-os até o fim” (Jo 13, 1). O amor de Deus não tem limites. Como repetia muitas vezes Santo Agostinho, é um amor que vai “até o fim sem fim”. Deus se oferece verdadeiramente todo para cada um de nós e não economiza em nada. O mistério que adoramos nesta Semana Santa é uma grande história do amor que não conhece obstáculos. A Paixão de Jesus vai até o fim do mundo, porque é uma história de partilha com os sofrimentos de toda a humanidade e uma permanente presença nos acontecimentos da vida pessoal de cada um de nós. Em resumo, o Tríduo Pascal é memorial de um drama de amor que nos dá a certeza de que não seremos nunca abandonados nas provações da vida.

Na Quinta-feira Santa, Jesus institui a Eucaristia, antecipando no banquete pascal o seu sacrifício no Gólgota. Para fazer os discípulos compreenderem o amor que o anima, lava seus pés, oferecendo ainda uma vez mais o exemplo em primeira pessoa de como eles mesmos deveriam agir. A Eucaristia é o amor que se faz serviço. É a presença sublime de Cristo que deseja alimentar cada homem, sobretudo os mais frágeis, para torná-los capazes de um caminho de testemunho entre as dificuldades do mundo. Não somente. Em dar-se a nós como alimento, Jesus atesta que devemos aprender a dividir com os outros este alimento para que se torne uma verdadeira comunhão de vida com quantos estão em necessidade. Ele se doa a nós e nos pede para permanecermos Nele para fazermos o mesmo.

A Sexta-feira santa é o momento culminante do amor. A morte de Jesus, que na cruz se abandona ao Pai para oferecer a salvação ao mundo inteiro, exprime o amor dado até o fim, sem fim. Um amor que pretende abraçar todos, ninguém excluído. Um amor que se estende a todo tempo e a todo lugar: uma fonte inesgotável de salvação a que cada um de nós, pecadores, podemos chegar. Se Deus nos demonstrou o seu amor supremo na morte de Jesus, então também nós, regenerados pelo Espírito Santo, podemos e devemos nos amar uns aos outros.

E enfim, o Sábado Santo é o dia do silêncio de Deus. Deve ser um dia de silêncio e nós devemos fazer de tudo para que para nós seja justamente um dia de silêncio, como foi naquele tempo: o dia do silêncio de Deus. Jesus colocado no sepulcro partilha com toda a humanidade o drama da morte. É um silêncio que fala e exprime o amor como solidariedade com os abandonados de sempre, que o Filho de Deus vem para preencher o vazio que apenas a misericórdia infinita do Deus Pai pode preencher. Deus se cala, mas por amor. Neste dia, o amor – aquele amor silencioso – torna-se espera da vida na ressurreição. Pensemos, o Sábado Santo: nos fará bem pensar no silêncio de Nossa Senhora, a “crente”, que em silêncio estava à espera da Ressurreição. Nossa Senhora deverá ser o ícone, para nós, daquele Sábado Santo. Pensar tanto como Nossa Senhora viveu aquele Sábado Santo; à espera. É o amor que não duvida, mas que espera na palavra do Senhor, para que torne evidente e brilhante o dia da Páscoa.

É tudo um grande mistério de amor e de misericórdia. As nossas palavras são pobres e insuficientes para exprimi-lo em plenitude. Pode vir em nosso auxílio a experiência de uma jovem, não muito conhecida, que escreveu páginas sublimes sobre o amor de Cristo. Chamava-se Giuliana di Norwich; era analfabeta, esta menina que teve visões da paixão de Jesus e que depois, tornando-se reclusa, descreveu, com linguagem simples, mas profunda e intensa, o sentido do amor misericordioso. Dizia assim: “Então o nosso bom Senhor me perguntou: ‘Estás feliz que eu tenha sofrido por ti?’. Eu disse: ‘Sim, Senhor, e te agradeço muito; sim, bom Senhor, que tu sejas bendito’. Então Jesus, o nosso bom Senhor, disse: ‘Se tu estás feliz, também eu estou. Ter sofrido a paixão por ti é para mim uma alegria, uma felicidade, uma alegria eterna; e se pudesse sofrer ainda mais eu o faria’”.

Como são belas essas palavras! Permitem-nos entender realmente o amor imenso e sem limites que o Senhor tem por cada um de nós. Deixemo-nos envolver por essa misericórdia que vem ao nosso encontro e, nestes dias, enquanto temos fixo o olhar sobre a paixão e a morte do Senhor, acolhamos no nosso coração a grandeza do seu amor e, como Nossa Senhora, o Sábado, em silêncio, à espera da Ressurreição.

O Acolhimento no Itinerário da Vida Cristã

itinerário vida cristã 28 de março.JPG

Como pensar a ação evangelizadora hoje? Qual o Papel dos Ministros e Agentes do Acolhimento no itinerário da vida cristã? Quais são os desafios a serem vencidos?  Essas e outras questões em programas semanais on-line.  

Dia 28 de março, exclusivamente aqui, no Blog Ministério do Acolhimento.

Liturgia do Dia – 22/03/2016 (comentada)

João 13, 21-33.36-38“Eu te farei luz das nações, para que minha salvação chegue até os confins da terra.  Jesus rompeu o antigo mundo e plantou um mundo novo, fundado em seu amor.  Deixemo-nos convencer por sua Palavra.”

Primeira leitura:  Isaías 49, 1-6

Salmo Responsorial:  70

Evangelho:  João 13, 21-33.36-38

-*-

A liturgia de hoje nos remete a uma realidade que se repete desde os primórdios da humanidade. O amor e a traição são duas vertentes da vida, que exigem de nós uma escolha.

O amor, como nos mostra a primeira leitura, é a justaposição com o Criador, e por assim ser, os que a ele aderem, agem com obediência e fidelidade, pois conhece a Justiça, logo, não temem as adversidades, tampouco as traições, pois sabem que em Deus será glorificado.

Jesus cristaliza o desígnio do Pai, sabe que do ponto de vista humano experimentará sozinho a traição e o sofrimento, mas também sabe que vencerá a morte e tornar-se-á luz de todas as nações.

Acolher a missão de Jesus é uma decisão libertadora, porém, requer de nós um esforço contínuo para permanecer em comunhão com Deus, renunciando a pequenez e a sedução do mundo, os glamour de quem só busca os seus interesses e a plena consciência de que seremos sempre entregues à situações de morte, porém, na certeza de que um dia, tal qual o Salvador, também seremos glorificados nele.  Acolher Jesus é, portanto,  servir e, servir é celebrar com a vida a plenitude do verdadeiro amor.

Minha boca anunciará vossa justiça!

Michelle Neves – Ministra do Acolhimento

Bacharel em Teologia pelo ISCR-ArqRio

Liturgia do Dia – 21/03/2016 (comentada)

João 12,1-12“Ele não clama nem levanta a voz, nem se faz ouvir pelas ruas.  Ele se faz humilde e servidor de todos.  Ele é o Senhor dos senhores.  todos nós temos dele o que aprender.”

Primeira leitura:  Isaías 42,1-7

Salmo Responsorial: 26

Evangelho:  João 12,1-12

-*-

Aproxima-se a o singular momento da celebração do Mistério da Salvação.  Em seis dias viveremos a alegria da Ressurreição, da vitória da vida sobre a morte, todavia, é necessário antes passar pela cruz, a esperança torna-se realidade.

A profecia de Isaías destaca a singularidade do Filho, que obediente, adota uma postura de silêncio diante de seus acusadores e, humildade, posto que cônscio que o seu dever é servir os mais necessitados e realizar a vontade do Pai.

O contra-ponto entre a ação de Maria e de Judas está no centro do Evangelho, a mulher que sinceramente oferece o que tem de mais precioso Àquele que dará a vida pela salvação da humanidade, e o homem ambicioso que utiliza da falsidade para suprimir algo que não lhe pertence.

O próprio Jesus aponta a ação mais digna, a ação que revela a reciprocidade do amor redentor.

Que possamos, nesta semana, em especial, deixar transbordar a misericórdia de Jesus em nós e assim ressuscitar para uma vida nova.

O Senhor, é minha luz e salvação!

Michelle Neves – Ministra do Acolhimento

Bacharel em Teologia pelo ISCR-ArqRio

Liturgia do Dia – 20/03/2016 (comentada)

Lucas 23, 1-49“A Palavra nos faz compreender profundamente o mistério de nossa salvação.  O Cristo sofredor nos ofereceu sua própria vida para nossa redenção.  Ele sabe que sua missão não será em vão.”

Primeira leitura:  Isaías 50, 4-7

Salmo Responsorial: 21

Segunda leitura:  Filipenses 2, 6-11

Evangelho:  Lucas 23, 1-49 (forma breve)

-*-

Meditação ara a Missa da Paixão do Senhor
(no Domingo de Ramos)

Com esta santa Eucaristia, iniciamos a Grande Semana. Tomemos três frases da Paixão que acabamos de ouvir. Elas são suficientes para inspirar-nos hoje.

Primeira palavra: “Desejei ardentemente comer convosco esta Páscoa antes de sofrer”.
Estas palavras do Senhor, saídas do Seu coração, são dirigidas também a nós; são um convite a celebrarmos a Sua Páscoa, participando na liturgia e na vida de Suas dores para também participarmos de Sua vitória, de sua Ressurreição.

Comer com Cristo a santa Páscoa é nos dispor a participar de Sua sorte, de Seu caminho rumo à cruz e à ressurreição.

Nunca esqueçamos: “Ele esvaziou-Se de Si mesmo… fazendo-Se obediente até a morte e morte de cruz. Por isso Deus O exaltou acima de tudo”. Este é o caminho pascal de Jesus e nosso. Disponhamo-nos, portanto, a caminhar com Ele. Aceitemos o Seu convite para comer com Ele esta Páscoa sagrada. Participemos ativa e piedosamente dos santos mistérios celebrados nestes dias e estejamos também dispostos a vivê-los na nossa vida.

Segunda palavra: “Quem vai Me trair é aquele que Comigo põe a mão no prato”. Que afirmação tão dolorosa: um de nós, um que come com o Senhor, um que participa da sua Mesa, O entregou! Esta advertência de Jesus deve ser sempre recordada por cada um de nós, que participamos de Sua Eucaristia! E que ninguém seja presunçoso como Pedro! Que humildemente nos perguntemos: “Mestre, serei eu?”

Traímos Jesus como Judas quando na hora da cruz O renegamos, deixamo-Lo, fugimos, buscando as facilidades de uma vida mundana, de valores mundanos, de uma lógica mundana… seguimo-Lo de longe, como Pedro, quando pretendemos ser cristãos sem nos comprometermos com Ele, sem por Ele nada renunciarmos, sem Nele empenharmos nossa vida!

Não O reneguemos como Pedro; não Lhe demos o beijo de Judas!

Que possamos escutar, um dia, a afirmação do Senhor: “Vós ficastes Comigo em minhas provações!”

Terceira palavra: “Eu estou no meio de vós como aquele que serve”. Nesta frase do Senhor está o sentido do que celebraremos durante esta santíssima Semana.

Ele mesmo disse que veio para servir e dar a vida em resgate da multidão (cf. Mc 10,45). É assim que Ele está em nosso meio: como Aquele que dá a vida por nós, que Se entrega por amor. Aquilo que Ele realizou na Sua existência toda, acolhendo, perdoando, curando, restaurando a esperança… isto é, entregando-Se a nós e por nós, agora Ele vai consumar até a morte e morte de cruz! Acolher esse serviço é reconhecer que Cristo morreu por nós, por nós entregou Sua vida e, assim, ser-Lhe grato de todo o coração, como Paulo, que exclamava: “Ele me amou e Se entregou por mim” (Gl 2,20). Sejamos-lhe gratos: vivamos também nós por Ele!

Caríssimos, estejamos de coração atento para vivenciar, nestes dias sagrados, tão grande mistério! Não recebamos em vão a graça de Deus: que aprendendo os ensinamentos de Sua paixão, ressuscitemos com Ele em Sua Glória. Amém.

Nós Vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e Vos bendizemos, porque pela Vossa santa cruz remistes o mundo.

Dom Henrique Soares da Costa – Bispo de Palmares/PE

Liturgia do Dia – 19/03/2016 (comentada)

mateus 1, 16.18-21.24“Abraão acolheu o que lhe disse o Senhor.  Do mesmo modo, José ,compreendendo o que era de Deus, tornou-se servidor de sua vontade.  No silêncio, o pai o confiou a guarda de sua casa.”

Primeira leitura:  2Samuel 7,4-5a.12-14a.16

Salmo Responsorial:  88

Segunda leitura:  Romanos 4, 13.16-18.22

Evangelho:  Mateus 1,16.18-21.24a

-*-

Da Exortação Apostólica Redemptoris Custos, de São João Paulo II, Papa:

Dirigindo-Se a José por meio das palavras do anjo, Deus dirige-Se a ele como sendo esposo da Virgem de Nazaré. Simultaneamente, o que nela se realizou por obra do Espírito Santo manifesta a confirmação especial do vínculo esponsal que já antes existia entre José e Maria.

O mensageiro diz claramente a José: «Não temas receber Maria, tua esposa.» Por conseguinte, o que tinha acontecido anteriormente – os seus esponsais com Maria – tinha sucedido por vontade de Deus e, portanto, devia ser conservado. Na sua maternidade divina, Maria há de continuar a viver «como uma virgem, esposa de um esposo» (cf. Lc 1,27).

Nas palavras da «anunciação» noturna, José não escuta apenas a verdade divina acerca da inefável vocação da sua esposa, ouve também novamente a verdade acerca da sua própria vocação. Este homem «justo» que, segundo o espírito das mais nobres tradições do povo eleito, amava a Virgem de Nazaré e a Ela se encontrava ligado por amor esponsal, é novamente chamado por Deus para este amor.

«José fez como lhe ordenou o anjo do Senhor, e recebeu sua esposa»; «O que Ela concebeu é obra do Espírito Santo». À vista de tais expressões, não se imporá porventura concluir que também o seu amor de homem tinha sido regenerado pelo Espírito Santo? Não se deverá pensar que o amor de Deus, que foi derramado no coração humano pelo Espírito Santo (cf. Rm 5,5), forma do modo mais perfeito todo o amor humano? Este amor de Deus forma também – e de maneira absolutamente singular – o amor esponsal dos cônjuges, aprofundando nele tudo o que tem de humanamente digno e belo e as características da exclusiva entrega, da aliança das pessoas e da comunhão autêntica, a exemplo do Mistério trinitário.

Liturgia do Dia – 18/03/2016 (comentada)

João 10, 31-42“Deus está ao lado dos que buscam a justiça, por isso, o profeta experimenta uma fé vitoriosa.  Nossos dias exigem pessoas justas e decentes que labutem em favor dos pobres e oprimidos, denunciando as injustiças e pondo-se ao lado do bem comum.  Jesus foi fiel ao Pai.  Enfrentou oposições.  Mas não se deixou impressionar pelas adversidades.  A nós fica o grande convite de Jesus:  sermos fiéis ao nosso batismo, sendo missionários do seu Reino.”

Primeira leitura:  Jeremias 20, 10-13

Salmo Responsorial 17

Evangelho:  João 10, 31-42

-*-

A liturgia de hoje nos fala da importância de estarmos em comunhão com a Verdade.

A Verdade é a Palavra de Deus, que nos fortalece diante das adversidades da vida, que congelam o avanço da humanidade e impedem ações que visam o bem comum.

A perseguição será sempre uma realidade a ser enfrentada, e talvez por não ser coerente com a natureza humana, seja tão difícil de compreendê-la, senão sob o viés da Palavra de Deus.

Aqueles que a acolhem já são novas criaturas, já não agem sem ter em si a firmeza da fé, que tudo transforma, e que portanto, tudo vence.

Assim, colocar-se em justaposição com o Senhor é também transfigurar-se em Cristo, e operar as obras do Pai, levando a esperança, a vida, a salvação, em todos os aspectos da própria história pessoal e comunitária.

Dia da Grande Cruzada pelo Brasil, contra a corrupção

“Antes de tudo, recomendo que façam pedidos, orações, súplicas e ações de graças em favor de todos os homens, pelos reis e por todos os que têm autoridade, a fim de que levemos uma vida calma e serena, com toda a piedade e dignidade… Quero, portanto, que os homens orem em todo lugar, erguendo mãos limpas, sem ira e sem discussões.”

(1Tm 2,1-8)

cruzada pelo brasil contra a corrupção1.

Liturgia do Dia – 17/03/2016 (comentada)

João 8, 51-59“Deus dias a Abraão: ‘Farei de ti o pai de uma multidão de nações.” E nós osmos hoje esse novo povo de Deus, formado por Jesus, um povo de discípulos-missionários.”

Primeira leitura:  Gêneses 17,3-9

Salmo Responsorial: 94

Evangelho:  João 8, 51-59

-*-

Temos dois aspectos importantes nas leituras de hoje.  A primeira é a promessa da aliança eterna, realizada através de Abraão, com a garantia da propriedade da terra prometida, e a segunda é a orientação para que seja guardada, por ele e todos os seus descentes, esta aliança para sempre.

No Evangelho a aliança eterna  é retratada pela garantia de jamais verão a morte, os que guardarem a Palavra, que é o próprio Cristo.

Assim, podemos concluir que é na Palavra que se centraliza a esperança para alcançar a terra prometida.  Sem ela não há forças para enfrentar os obstáculos desta terra peregrina, tampouco motivação para perseverar.

Hoje, a palavra de ordem é a esperança naquele que sempre existiu junto ao Pai e ao Espírito; a promessa de ressurreição é única capaz de nos ensinar, transformar e guiar para que possamos juntos saborear os frutos da vida eterna.

Catequese do Papa Francisco – 16/03/2016

brasão-papa_-Francisco

CATEQUESE
Praça São Pedro – Vaticano
Quarta-feira, 16 de março de 2016

 

Queridos irmãos e irmãs, bom dia.

No livro do profeta Jeremias, os capítulos 30 e 31 são ditos “livro da consolação”, porque nesses a misericórdia de Deus se apresenta com toda a sua capacidade de confortar e abrir o coração dos aflitos à esperança. Hoje queremos também nós ouvir essa mensagem de consolação.

Jeremias se dirige aos israelitas que foram deportados à terra estrangeira e pré-anuncia o retorno à pátria. Este retorno é sinal do amor infinito de Deus Pai, que não abandona os seus filhos, mas cuida deles e os salva. O exílio foi uma experiência devastante para Israel. A fé havia vacilado porque em terra estrangeira, sem o templo, sem o culto, depois de ter visto o país destruído, era difícil continuar a acreditar na bondade do Senhor. Penso na vizinha Albânia e como, depois de tanta perseguição e destruição, conseguiu se reerguer na dignidade e na fé. Assim sofreram os israelitas no exílio.

Também nós podemos viver às vezes uma espécie de exílio, quando a solicitude, o sofrimento, a morte nos fazem pensar termos sido abandonados por Deus. Quantas vezes ouvimos essa palavra: “Deus se esqueceu de mim”: são pessoas que sofrem e se sentem abandonadas. E quantos nossos irmãos estão vivendo neste tempo uma real e dramática situação de exílio, distantes da sua pátria, tendo nos olhos os escombros de suas casas, no coração o medo e, muitas vezes, infelizmente, a dor pela perda de pessoas queridas! Nestes casos, alguém pode se perguntar: onde está Deus? Como é possível que tanto sofrimento possa se abater sobre os homens, mulheres e crianças inocentes? E quando procuram entrar em qualquer outra parte lhe fecham a porta. E estão ali, na fronteira porque tantas portas e tantos corações estão fechados. Os migrantes de hoje que sofrem o frio, sem comida e não podem entrar, não sentem a acolhida. Gosto tanto de ouvir quando vejo as nações, os governantes que abrem o coração e abrem as portas!

O profeta Jeremias nos dá uma primeira resposta. O povo exilado poderá voltar a ver sua terra e experimentar a misericórdia do Senhor. É o grande anúncio de consolação: Deus não está ausente nem hoje nestas dramáticas situações, Deus está próximo e faz obras grandes de salvação para quem confia Nele. Não se deve ceder ao desespero, mas continuar a ser seguro de que o bem vence o mal e que o Senhor enxugará cada lágrima e nos libertará de todo medo. Por isso Jeremias empresta a sua voz às palavras de amor de Deus pelo seu povo:

“De longe me aparecia o Senhor:
amo-te com eterno amor,
e por isso a ti estendi o meu favor.
Reconstruir-te-ei, e serás restaurada, ó virgem de Israel!
Virás, ornada de tamborins, participar de alegres danças” (31, 3-4)

O Senhor é fiel, não abandona à desolação. Deus ama com um amor sem fim, que nem mesmo o pecado pode frear, e graças a Ele o coração do homem se enche de alegria e de consolação.

O sonho consolante do retorno à pátria continua nas palavras do profeta, que dirigindo-se a quantos retornarão a Jerusalém, diz:

“Regressarão entre gritos de alegria às alturas de Sião
acorrendo aos bens do Senhor:
ao trigo, ao mosto e ao óleo,
ao gado menor e ao maior.
Sua alma se assemelha a jardim bem regado,
e sua fraqueza cessará” (31, 12).

Na alegria e no reconhecimento, os exilados voltarão a Sião, saindo sobre o monte santo rumo à casa de Deus e assim poderão de novo levantar hinos e orações ao Senhor que os libertou. Este retornar a Jerusalém e aos seus bens é descrito com um verbo que literalmente quer dizer “afluir, socorrer”. O povo é visto, em um movimento paradoxal, como um rio em cheia que flui rumo à altura de Sião, movendo em direção ao topo da montanha. Uma imagem corajosa para dizer quanto é grande a misericórdia do Senhor!

A terra, que o povo tinha sido obrigado a abandonar, tinha se tornado vítima de inimigos e desolados. Agora, em vez disso, retoma a vida e refloresce. E os exilados serão como um jardim irrigado, como uma terra fértil. Israel, levado novamente à pátria pelo seu Senhor, assiste à vitória da vida sobre a morte e da benção sobre a maldição.

É assim que o povo é fortificado e consolado por Deus. Esta palavra é importante: consolado! Os repatriados recebem vida de uma fonte que, gratuitamente, os irriga.

A este ponto, o profeta anuncia a plenitude da alegria e sempre, em nome de Deus, proclama:

“Transformar-lhes-ei o luto em regozijo,
e os consolarei após o sofrimento e os alegrarei” (31, 13).

O salmo nos diz que, quando voltaram à pátria, a boca se enche de sorriso; é uma alegria tão grande! É o dom que o Senhor quer dar também a cada um de nós, com o seu perdão que converte e reconcilia.

O profeta Jeremias nos deu o anúncio, apresentando o retorno dos exilados como um grande símbolo da consolação dada ao coração que se converte. O Senhor Jesus, por sua parte, levou a cumprimento esta mensagem do profeta. O verdadeiro e radical retorno do exílio e a confortante luz depois da escuridão da crise de fé se realiza na Páscoa, na experiência cheia e definitiva do amor de Deus, amor misericordioso que dá alegria, paz e vida eterna.

Festa da Misericórdia

Atenção!

Aos interessados na Consagração solicitamos comunicar, até o dia 20 de março (domingo), a secretaria paroquial.

festa da misericórdia

O Santo João Paulo II, quando Papa, em Maio de 2000, instituiu a Festa da Divina Misericórdia para toda a Igreja, decretando que a partir de então o segundo Domingo da Páscoa (Dominica in Albis) se passasse a chamar Domingo da Divina Misericórdia.

Segundo os católicos, por meio desta apóstola da Misericórdia, a Irmã Faustina Kowalska, Jesus prometeu:

Neste dia, estão abertas as entranhas da minha Misericórdia. Derramo todo um mar de graças sobre as almas que se aproximam da fonte da Minha Misericórdia. A alma que se confessar e comungar alcançará o perdão das penas e culpas. Neste dia, estão abertas todas as comportas divinas pelas quais fluem as graças. Que nenhuma alma tenha medo de se aproximar de mim“.

 

Liturgia do Dia – 16/03/2016 (comentada)

João 8, 31-42“Os três jovens dão testemunho do desígnio divino.  Deus está sempre presente, mesmo que a nós pareça não estar, pois, em Jesus, Ele firmou em nós a vida, a liberdade e a paz.”

Primeira leitura:  Daniel 3,14-20.24.49a.91-92.95

Salmo Responsorial:  Daniel 3, 52-56

Evangelho:  João 8, 31-42

-*-

A liberdade é um dos valores mais desejados e buscados por todos os homens, todavia, não poucas vezes é considerada superficialmente, ou seja, como algo experimentado por aqueles não encarcerados, ou ainda, como a possibilidade de pensar e fazer o que se quer, a qualquer momento, lugar ou condição.

Porém a liberdade que Deus nos oferece, conforme os textos bíblicos é infinitamente mais ampla e cheio de significado.  A exemplo dos três jovens o sentido aqui pressupõe a renúncia aos apelos do mundo, que são passageiros, promovem a dependência e levam à  escravidão, em favor daquela que por ser abstrata, gera reflexão e vida.

A melhor forma de compreender a liberdade cristã, portanto,  é a partir da fé, como elemento de aproximação com Deus e com nossos semelhantes.

A fé que acolhe o amor misericordioso de Deus  dilata o coração e nos faz perscrutar uma nova realidade, onde a justiça e fraternidade caminham juntas com o Santo Espírito, no amor, na paz, na alegria, na paciência, na benevolência, na bondade, na fidelidade, na mansidão e no autodomínio, ou seja, na liberdade por excelência.

Compreende-se assim, no estilo literário apocalíptico da Profecia de Daniel, que a razão pela qual os jovens Sidrac, Misac e Abdênago, mesmo sob ameaça do rei,  não se preocuparam em serem lançados numa fornalha, foi a fé.

Ela os fez caminhar livremente entre as chamas, em conformidade à vontade de Deus e sob a proteção dele, gerando assim, conversão e vida.

E é neste caminho que Jesus exorta aos judeus (e a todos nós) a permanecerem; o discipulado não se limita ao batismo, mas exige a acolhida da Palavra, para que tenhamos coragem de enfrentar os desafios e renunciar ao pecado, que nos tira da graça e nos torna escravos.

O amor misericordioso de Deus, como diz o Santo Padre (Papa Francisco) na bula Misericordiae Vultus, tem o rosto de Jesus, sacramento do amor maior de Deus por nós, que pela sua morte e ressurreição nos fez livres e, também nos fez filhos, abrindo-nos a condição de permanecer para sempre em sua família, desde que permitamos que a sua Palavra lance raízes em nossas vidas e em nossa história.

Libertai-nos Senhor, por vosso amor!

Michelle Neves – Ministra do Acolhimento

Bacharel em Teologia pelo ISCR-ARQRio

Liturgia do Dia – 15/03/2016

João 8, 21-30“A haste levantada do deserto antecipa o sinal da cruz de Cristo.  Dela nos veio a salvação.  Por isso, Jesus mesmo nos diz: ‘Quando tiverdes elevado o Filho do Homem, então sabereis que eu sou'”.

Primeira leitura:  Números 21, 4-9

Salmo Responsorial:  101, 2-21

Evangelho:  João 8, 21-30

-*-

A liturgia de hoje é marcada pela figura da serpente, símbolo que contrapõe a  ação do mal e do bem, no contexto bíblico apresentado nas leituras.

Temos no Livro dos Números um povo impaciente e revoltado contra Deus e Moisés, por não mais aceitar as condições que a peregrinação no deserto apresentava. Textualmente há a informação de que o Senhor mandou contra o povo serpentes venenosas que levaram muitos à morte.

A presença das serpentes representam a ação do mal,  só afastado pela intercessão de Moisés, a pedido do povo que se reconhece ingrato e pecador, ou seja, reconhece que se colocaram na condição de pessoas afastadas de Deus.

Não estamos diante da uma vingança divina, mas da consequência lógica da renúncia ao bem, absolutamente compreensível, também nos dias atuais.

A didática de Deus,  para reverter a situação, não é nem de longe um estímulo à adoração de imagens, mas reflexo do amor que desce à mediocridade do ente amado, para fazê-lo entender  que estar ou não em comunhão com Ele é o que define ser ou não salvo.

O Evangelho, assim,  nos conduz de forma infinitamente mais rica à materialização desse amor que deseja acima de tudo o bem do povo amado. Nele, Jesus revela a dimensão de sua comunhão com o Pai (Eu sou!), encandecendo ainda mais a ira de Fariseus e Senhores da Lei.

O caminho da morte,  é apresentado como aquele percorrido a passos largos por aqueles que se mantêm afastados da Graça, e, apesar de todas as evidências, não acreditam que é através do Redentor que salvação se manifesta.

Tal qual a serpente abrasadora, Jesus, o novo Moisés, fiel e obediente, se afirma como plena realização da promessa. Elevado sobre um madeiro, cura, liberta e salva, todos aqueles que acolhem a misericórdia que nos foi derramada pelo sangue e água que verteram de seu coração e mudaram o rumo da história da humanidade e o qual somos chamados a seguir.

Senhor, tende misericórdia de nós!

Michelle Neves – Ministra do Acolhimento

Bacharel em Teologia pelo ISCR-ArqRio

Liturgia do Dia – 14/03/2016 (comentada)

João 8, 12-20“Jesus é a fonte da vida e à sua luz saberemos discernir entre a verdade do Reino e as coisas do mundo.  Viver no mundo sem Deus é preferir as trevas.  Viver no mundo sob a luz de seu amor é saber enxergar sua presença sempre amorosa no meio de nós.  Deus continua confiando em nós.  É preciso corresponder a sua confiança; e isso só é possível se vivermos em sua luz.  Longe dele não há vida, junto dele tudo é dia sem fim.”

Primeira leitura:  Daniel 13, 41c-62

Salmo Responsorial:  22

Evangelho:  João 8, 12-20

-*-

Temos na primeira leitura a presença de uma mulher justa que é levada a julgamento por não se permitir contrariar os valores intrínsecos a sua fé, e, com isso, atender a permissividade leviana de dois homens indignos.

A personalidade da protagonista do texto veterotestamentário  revela assim que mesmo numa situação de iminente perigo e desonra , a confiança em Deus não foi abalada e por isso o Senhor escutou a sua voz.

Jesus, no Evangelho de hoje vem corroborar com o ensinamento da primeira leitura, demonstrando que como fonte da vida, todos a todos os que O seguem está garantia a luz da vida, pois nEle se realiza plenamente a promessa do Pai.

Daí a relação simbiótica entre o Filho e o Pai, que dão testemunham um do outro. Ambos estão intrinsecamente ligados, para a salvação de todos.  E é esta a ligação a qual somos chamados a viver.

A confiança em Deus parte da acolhida da sua Verdade, materializada em Jesus, Palavra eterna do Pai a qual nos sustenta, nos dá segurança e ilumina os nossos caminhos.

Mesmo que eu passe pelo vale tenebroso, nenhum mal eu temerei, estais comigo!

Michelle Neves – Ministra do Acolhimento

Bacharel em Teologia pelo ISCR-ArqRio

Liturgia do Dia – 13/03/2016 (comentada)

João 8, 1-11

“Eis que faço novas todas as coisas. O Espírito do Senhor é capaz de impulsionar o coração humano para frente, oferecendo a todos o perdão dos pecados. Reconhecendo nossos próprios pecados, seremos capazes de perdoar as fraquezas dos que nos cercam.”

Primeira leitura:  Isaías  43, 16-21

Salmo Responsorial:  25

Segunda leitura:  Filipenses 3, 8-14

Evangelho: João 8, 1-11

-*-

Caríssimos Irmãos no Senhor, estamos nos encaminhando para o final da Quaresma; estamos próximos do início da Grande Semana que desemboca no Tríduo Pascal!
Hoje, a Palavra que a Igreja nos proclama convida-nos a esquecer o velho pecado, esquecer o que ficou para trás, e prosseguir, renovados, para adiante, para frente, onde Cristo nos espera! Certamente, esse “esquecer o que fica para trás” não pode ser uma negação irresponsável do nosso passado! Esquecer o pecado que passou somente é possível quando o assumimos diante de Deus e o confessamos de coração sincero. Para isto Cristo nosso Deus nos deixou o Sacramento da Penitência!
Assumamos, pois, que somos pecadores, confessemos nossos pecados e caminhemos, passos apressados e decididos, ao encontro do Cristo que nos salva e purifica!

É a tal atitude que as leituras de hoje nos convidam, caríssimos.
O Senhor, na primeira leitura, nos exorta pela boca de Isaías Profetas: “Não relembreis coisas passadas, não olheis para fatos antigos. “Eis que Eu farei coisas novas, e que já estão surgindo: acaso não as conheceis? Pois abrirei uma estrada no deserto e farei correr rios na terra seca”.
O mesmo Deus que abriu o tremendo Mar Vermelho e arrancou Israel da morte, dando-lhe um futuro, agora nos promete algo maior, uma coisa nova. Que coisa? Que promessa? Ei-la: em Cristo Jesus nos será aberta uma estrada no meio do mar da morte, e nós com Cristo e em Cristo, ressuscitaremos, viveremos.
Mais ainda: já agora, atravessando as águas do santo Batismo, seremos lavados, regenerados, purificados e, como novo povo de Deus, como Sua Igreja, atravessaremos o deserto deste mundo rumo à Terra Prometida da glória celeste.

Também São Paulo, na segunda leitura, convida-nos a deixar o que ficou para trás e correr para adiante, para o Cristo. Suas palavras são claras e nos devem contagiar de entusiasmo: “Não que já tenha recebido tudo isso ou que já seja perfeito. Mas corro para alcançá-Lo, visto que já fui alcançado por Cristo Jesus. Irmãos, eu não julgo já tê-lo alcançado. Uma coisa, porém, eu faço: esquecendo o que fica para trás, eu me lanço para o que está na frente. Corro direto para a meta, rumo ao prêmio, que, do alto, Deus me chama a receber em Cristo Jesus”.
Isto mesmo: não somos perfeitos, experimentamos em nós ainda as marcas da concupiscência deixada pelo pecado original, mas Cristo nos atrai, Seu amor nos impele porque Ele nos alcançou, nos conquistou, nos resgatou com Sua preciosa cruz e ressurreição!
Então, esqueçamos a vida de pecado, caríssimos! Deixemos para trás a velhice dos velhos vícios, que nos prendem, nos deformam, nos desumanizam! Lancemo-nos para adiante, para o Futuro, a Meta, o Objetivo! – O Futuro é Cristo, a Meta é Cristo, o Objetivo é ainda Cristo! Nele receberemos a salvação!
Olhai bem, caríssimos, que vale a pena tudo deixar por Cristo, tudo perder por Cristo, por Cristo tudo deixar para trás! Basta pensar no santo Apóstolo, que ainda nesta segunda leitura nos dá um testemunho comovente: “Considero tudo como perda diante da vantagem suprema que consiste em conhecer a Cristo Jesus, meu Senhor. Por causa Dele eu perdi tudo. Considero tudo como lixo, para ganhar Cristo e ser encontrado unido a Ele”.
Que palavras, que experiência, que vida, a de Paulo Apóstolo! Perder tudo por Cristo e tudo ganhar em Cristo; deixar tudo por Cristo e tudo encontrar em Cristo! Como há dois mil anos atrás, ainda hoje somente quem se perde em Cristo pode experimentar a ternura amorosa de Cristo; somente quem se deixa por Ele pode encontrar-se Nele, encontrar-se de verdade! É isto, caríssimos, conhecer a Cristo, é isto experimentá-Lo e, então, saber, de verdade, que Ele está vivo, que Ele é o nosso Salvador, que Ele é nossa doçura e o sentido único de nossa vida!

Vamos, caríssimos meus amados! Aproveitemos esses dias quaresmais. Olhemos a misericórdia de Jesus e não duvidemos de que Ele pode nos restaurar, nos libertar dos vícios e pecados!
Se para Ele nos abrirmos, se com Ele e por Ele abraçarmos a luta interior, o combate espiritual, a penitência generosa, certamente escutaremos sua voz que nos dirá como à pecadora de hoje: “Eu não te condeno. Vai e não peques mais!”
Muitas vezes, o mundo hipócrita ou nossa consciência obscurecida querem nos jogar na miséria, querem que para nós não haja esperança em Cristo! Muitas vezes, parece que nosso destino é aquele que os escribas e fariseus do Evangelho deste Domingo queriam dar à mulher adúltera: a lama, o desespero, a pecha sem cura de ser perdido, de ser pecador… Mas, Jesus, o Inocente, o Puro, o único que poderia nos condenar e nos atirar pedras, Ele nos diz, do fundo do Seu Coração: “Eu não te condeno!” E nos convida e nos desafia em os ordena: “Vai, e não peques mais!”

Então, caríssimos, olhemos para frente e confiemos no amor do Senhor! Mas, para que nossa união com Cristo não seja uma ilusão e uma mentira, que estejamos prontos a participar dos Seus sofrimentos (olhai bem que os sofrimentos Dele são aqueles que se manifestam na nossa vida!), a conhecer por experiência o mistério de Sua cruz para, assim, participarmos também da força regeneradora da Sua bendita ressurreição. Recordai a palavra de São Paulo, o seu programa de vida: “conhecer a Cristo, experimentar a força de Sua ressurreição, ficar em comunhão com os Seus sofrimentos, tornando-me semelhante a Ele na Sua morte, para ver se alcanço a ressurreição dentre os mortos”.
Seja este, meus irmãos no Senhor, o fruto do nosso caminho de Quaresma: ter tal união com o Salvador, que estejamos em comunhão com os Seus sofrimentos e possamos experimentar em nós o poder da Sua ressurreição, que nos dá uma Vida nova, como a da adúltera, renovada pelo perdão do Salvador. A Ele a glória hoje e para sempre. Amém.

Dom Henrique Soares da Costa – Bispo de Palmares/PE

 

Catequese Jubilar: ser misericordiosos como o Pai significa seguir Jesus pelo caminho do serviço – 12/03/2016

brasão-papa_-Francisco

JUBILEU EXTRAORDINÁRIO DA MISERICÓRDIA

PAPA FRANCISCO

AUDIÊNCIA JUBILAR

Sábado, 12 de Março de 2016

Amados irmãos e irmãs, bom dia!

Estamos a aproximar-nos da festa de Páscoa, mistério central da nossa fé. O Evangelho de João — como ouvimos — narra que antes de morrer e de ressuscitar por nós, Jesus realizou um gesto que ficou gravado na memória dos discípulos: o lava-pés. Um gesto inesperado e perturbador, a ponto que Pedro não queria aceitá-lo. Gostaria de analisar as palavras finais de Jesus: «Entendeis o que vos tenho feito? […] Ora, se eu, Senhor e Mestre, vos lavei os pés, vós deveis também lavar os pés uns aos outros» (13, 12.14). Deste modo Jesus indica aos seus discípulos o serviço como o caminho a percorrer para viver a fé n’Ele e dar testemunho do seu amor. O próprio Jesus aplicou a si a imagem do «Servo de Deus» usada pelo profeta Isaías. Ele, que é o Senhor, faz-se servo!

Lavando os pés aos apóstolos, Jesus quis revelar o modo de agir de Deus em relação a nós, e dar o exemplo do seu «mandamento novo» (Jo 13, 34) de nos amarmos uns aos outros como Ele nos amou, ou seja, dando a vida por nós. O próprio João o escreve na sua Primeira Carta: «Nisto, conhecemos a caridade: que ele deu a sua vida por nós, e nós devemos dar a vida pelos irmãos. […] Meus filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas por obra e em verdade» (3, 16.18).

Por conseguinte, o amor é o serviço concreto que prestamos uns aos outros. O amor não são palavras, são obras e serviço; um serviço humilde, feito no silêncio e no escondimento, como o próprio Jesus disse: «não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita» (Mt 6, 3). Ele significa pôr à disposição os dons que o Espírito Santo nos dispensou, para que a comunidade possa crescer (cf. 1 Cor 12, 4-11). Além disso, expressa-se na partilha dos bens materiais, para que ninguém esteja em necessidade. A partilha e a dedicação a quem está em necessidade é um estilo de vida que Deus sugere também a muitos não cristãos, como caminho de humanidade autêntica.

Por fim, não esqueçamos que lavando os pés aos discípulos e pedindo-lhes para fazerem o mesmo, Jesus nos convidou também a confessar reciprocamente as nossas faltas e a rezar uns pelos outros a fim de nos sabermos perdoar de coração. Neste sentido, recordamos as palavras do santo bispo Agostinho quando escrevia: «Que o cristão não desdenhe de fazer o que Cristo fez. Porque quando o corpo se inclina até aos pés do irmão, também no coração se acende, ou se já existia alimenta-se, o sentimento de humildade […] Perdoemo-nos reciprocamente as nossas faltas e rezemos pelas culpas uns dos outros, de modo que de alguma maneira nos lavaremos os pés mutuamente» (In Joh 58, 4-5). O amor, a caridade é o serviço, ajudar os outros, servir os outros. Há tanta gente que passa a vida assim, no serviço dos outros. Na semana passada recebi uma carta de uma pessoa que me agradecia pelo Ano da Misericórdia; pedia-me que rezasse por ela, para que pudesse estar mais próxima do Senhor. Esta pessoa passa a vida a cuidar da mãe e do irmão: a mãe é idosa e está acamada, lúcida mas não se pode mover, e o irmão é deficiente, está numa cadeira de rodas. A vida desta pessoa consiste em servir, ajudar. E isto é amor! Quanto te esqueces de ti mesmo e pensas nos outros, isto é amor! E com o lava-pés o Senhor ensina-nos a servir, ou melhor: servos, como Ele foi servo para nós, para cada um de nós.

Portanto, queridos irmãos e irmãs, ser misericordiosos como o Pai significa seguir Jesus pelo caminho do serviço. Obrigado.

Liturgia do Dia – 12/03/2016 (comentada)

João 7, 40-53“Eu era como um manso cordeiro levado ao sacrifício.  Jesus é rejeitado, ma não perde a liberdade nem a fidelidade ao Pai.  Enfrenta a adversidade e a morte por amor, para nossa salvação.”

Primeira leitura:  Jeremias 11, 18-20

Salmo Responsorial:  7

Evangelho:  João 7, 40-53

-*-

O contexto da primeira leitura corresponde a uma das confissões de Jeremias, cujo cumprimento de sua missão provocava a hostilidade e a perseguição. Ele não compreendida por qual razão os injustos prosperavam em suas intrigas e rogava a Deus pela vingança, alegando que n’Ele confiou a sua causa.

Contexto semelhante é apresentado no Evangelho segundo São João, onde o povo dividido acerca de quem era afinal Jesus: uns defendiam a impossibilidade de tratar-se do Messias, uma vez que este não viria da Galileia, porém não conseguiam explicar a magnitude de sua Palavra e ações.

A ira dos fariseus era materializada pelo desejo de tirar Jesus de circulação e pela expressa indignação em não lograr êxito em reduzir suas ações a algo de pouca importância.

É importante relembrar que o próprio Jesus afirmou que não veio para abolir a Lei, mas dá-la cumprimento, e isso significava, na prática que, realizar a vontade de Deus sobrepujava a Lei que mantinha fariseus e doutores acomodados em suas posições sociais.  Era isso que tanto incomodava.

Temos diante de nós dois ensinamentos importantes:

  1. A missão de evangelizar não afasta dos enviados do Senhor o sofrimento, a falta de reconhecimento, tampouco a hostilidade e a perseguição.  É inerente ao ser cristão, carregar a cruz, por isso acolher e confiar na Palavra de Deus é condição essencial para perseverar na caminhada.
  2. A ação divina não se detém as limitações da compreensão humana. A relevância não é de onde o Messias viria, apesar da Palavra em Mateus e Lucas, confirmar a sua descendência. Precisamos compreender que em inúmeras situações só nos é possível reconhecer sua ação divina muito tempo depois dos fatos ocorridos, por isso, o caminho mais seguro será sempre a da acolhida da Palavra e a do amor misericordioso, que comporta a constante reflexão acerca da Paixão de Nosso Senhor, onde a cruz não representa o fim, mas o começo e a eternidade da glória que nos é reservada em seu Nome.

Senhor meu Deus, em vós procuro o meu refúgio!

Michelle Neves – Ministra do Acolhimento

Bacharel em Teologia pelo ISCR-ArqRio

 

Liturgia do Dia – 11/03/2016 (comentada)

João 7, 1-2. 10. 25-30“Os injustos acusam o justo, pois não toleram a sua sabedoria.  O homem mais justo da terra, Jesus, sofre também a mesma ignomínia:  queriam prendê-lo e martirizá-lo.”

Primeira leitura:  Sabedoria 2, 1a.12-22

Salmo Responsorial:  33

Evangelho:  João 7, 1-2. 10. 25-30

-*-

A liturgia de hoje nos ensina que a adesão à Pessoa de Cristo é essencial para uma autêntica vida cristã.  A verdadeira identificação, assim,  não se limita a somente aceitar e reconhecê-lo como Salvador, mas viver segundo sua Palavra a tal ponto que sejamos expressão de sua vida, da sua fidelidade e misericórdia, inclusive quando rejeitados por aqueles que não creem, ou mesmo os que, credo, não compreendem a imensidão da sua missão.

O livro da Sabedoria relata que os justos não estão isentos das investidas do mal, mas o segredo está em abrir o coração para receber as graças do Senhor e estarmos cada dia mais envolvidos pelo seu amor.

Neste final de Quaresma somos chamados a despertar para uma vida de solidariedade e justiça, enfrentando com coragem as adversidades, sem perder de vista a ternura que nos resgatou do pecado e nos abriu a possibilidade de viver eternamente.

Guiai-nos Senhor, no caminho de vosso Reino!

Michelle Neves- Ministra do Acolhimento
Bacharel em Teologia pelo ISCR-ArqRio

Liturgia do Dia – 10/03/2016 (comentada)

joão 5, 31-47“O povo rompeu sua Aliança com Deus, sua fidelidade, e Moisés, suplica por ele.  É Jesus a Aliança eterna, a qual devemos sempre ser fiéis.”

Primeira leitura:  Êxodo 32,7-14

Salmo Responsorial: 105

Evangelho:  João 5, 31-47

-*-

A liturgia de hoje faz um chamado à maturidade da fé. Libertados por Deus e cientes da aliança celebrada, o povo ignora os fatos ocorridos num passado recente e rende-se à idolatria quando encontra dificuldades.  Moisés é aí o exemplo de quem não esquece dos prodígios de Deus e sabe colocar-se, inclusive, na condição dos seus, intercedendo por eles.

Nota-se que a generosidade de Moisés o faz recusar a proposta de tornar-se pai de um povo, demonstrando que a sua solidariedade abarcava a fé na salvação de todos os seus.

A atitude de Jesus não é diferente.  Ele aponta aos judeus a fragilidade de sua fé, que foi incapaz de acolher os testemunhos que comprovavam estarem diante do Deus vivo, do Deus que, embora não trouxesse nada do que eles já não soubessem, estava ali, para a salvação de todos.

Jesus é assim, o novo Moisés, que pela renuncia de si, reunificou o povo na aliança, agora eterna, pois na morte, o Senhor o levou à ressurreição.  Mais uma vez, a Palavra de Deus, no texto veterotestamentário, se realizou em Cristo, e também se realiza em nós, quando nos comprometemos com a justiça divina, trabalhamos em prol do bem comum, de forma caridosa e generosa e intercedemos por tantos irmãos, que seduzidos pelas glórias do mundo, renunciam ou ignoram a Misericórdia que salva.

Conservai-nos, Senhor, em vosso caminho!

Michelle Neves – Ministra do Acolhimento
Bacharel em Teologia pelo ISCR-ArqRio

Liturgia do Dia – 09/03/2016 (comentada)

João 5, 17-30“É grande, sem fim o amor do Senhor que ‘consola seu povo e se compadece dos pobres’. Jesus não tem medo da oposição que lhe fazem, pois sabe quem Ele é e para que veio ao mundo.”

Primeira leitura:  Isaías 49, 8-15

Salmo Responsorial:  144

Evangelho:  João 5, 17-30

-*-

Deus age no curso da história humana para a transformar sua realidade de sofrimento. Seu amor é semelhante ao amor da mãe por seus filhos, não só imensurável, mas próximo e solícito, capaz de redimensionar a sua missão para promover a vida em plenitude.

Este retrato da primeira leitura é levado ao extremo por Jesus, que não se apresenta como o próprio Deus, mas como Àquele que obediente ao Pai, ultrapassa os limites da lei, o que incomoda os detentores do poder,  e age em conformidade com a vontade dEle.

Unido a Deus, consagra-se como quem é, de fato, capaz de restabelecer definitivamente a Aliança que garante a realização da Promessa e pela partilha da própria vida, tornando possível  a salvação para todos que acolherem a sua Palavra.

Misericórdia e piedade é o Senhor!

Michelle Neves – Ministra do Acolhimento
Bacharel em Teologia pelo ISCR-ArqRio

Liturgia do Dia -08/03/2016 (comentada)

João 5, 1-16“A água transbordante do templo é sinal da graça divina, do amor eterno que penetra toda existência humana.  Por amor, nos aproximamos dos pobres, dos excluídos, dos que estão longe da fonte da vida.”

Primeira leitura:  Ezequiel 47, 1-9.12

Salmo Responsorial:  45

Evangelho: João 5, 1-16

-*-

O profeta Ezequiel testemunhou o nascimento de uma fonte que nasceu do próprio templo e correu para onde a Glória do Senhor se manifestará. O alcance das águas fez delas um rio onde não era mais possível atravessar, senão à nado e sua grandeza tornava fecunda a vida e próspera toda a região por onde passava.

Esta visão de Ezequiel realiza-se em Jesus, Templo por excelência, e de onde jorrou a água viva do Espírito, como podemos ver do Evangelho de João (7,38; 19-34). E é dessa excelência que a liturgia de hoje, nos chama a acolher a Palavra.

A pergunta e a determinação direcionadas ao pobre homem, que buscava sua cura há 38 anos, foram determinantes para a mudança de vida. A partir da acolhida da Palavra, fonte de água viva, a sua coragem se restabeleceu, pois encontrou algo muito mais forte e eficaz do que a rigidez do normativo sócio-jurídico, que mantinha tantos, e por tantos anos, paralisados.

A determinação de Jesus não era imperativa somente quanto ao levantar, pegar a cama e andar, mas também exigia a renúncia ao pecado, principal agente das doenças sociais da humanidade, ou seja, era-lhe oferecida a cura completa, do corpo e da alma.

A liturgia também nos exorta a olhar para os lados e não apenas ver, mas enxergar as necessidades de nossos irmãos.  Assim como um homem, sem nome, conduz Ezequiel a conhecer a profundidade e os benefícios da água que nasce dos fundamentos do Templo, Jesus, vê o homem doente, e dirige-se a ele, para que este também possa experimentar usufruir da fonte de água viva.

A nós batizados e consagrados pelas águas do batismo é imprescindível este olhar misericordioso que nos aproxima dos pobres, excluídos e afastados e que nos faz missionários deste rio que brota do coração de Jesus.

Vós que tendes sede, vinde às águas; Vós que não tendes com que pagar, vinde e bebei com alegria!

Michelle Neves- Ministra do Acolhimento

Bacharel em Teologia pelo ISCR-ArqRio