24 horas para o Senhor (8a. hora)

eucaristia centroSalmo 44(45)
As núpcias do Rei
O noivo está chegando. Ide ao seu encontro! (Mt 25,6).

=2 Transborda um poema do meu coração; †
vou cantar-vos, ó Rei, esta minha canção; *
minha língua é qual pena de um ágil escriba.

=3 Sois tão belo, o mais belo entre os filhos dos homens! †
Vossos lábios espalham a graça, o encanto, *
porque Deus, para sempre, vos deu sua bênção.

–4 Levai vossa espada de glória no flanco, *
herói valoroso, no vosso esplendor;
–5 saí para a luta no carro de guerra *
em defesa da fé, da justiça e verdade!

= Vossa mão vos ensine valentes proezas, †
6 vossas flechas agudas abatam os povos *
e firam no seu coração o inimigo!

=7 Vosso trono, ó Deus, é eterno, é sem fim; †
vosso cetro real é sinal de justiça: *
8 Vós amais a justiça e odiais a maldade.

= É por isso que Deus vos ungiu com seu óleo, †
deu-vos mais alegria que aos vossos amigos. *
9 Vossas vestes exalam preciosos perfumes.

De ebúrneos palácios os sons vos deleitam. *
10 As filhas de reis vêm ao vosso encontro,
e à vossa direita se encontra a rainha *
com veste esplendente de ouro de Ofir.

11 Escutai, minha filha, olhai, ouvi isto: *
‘Esquecei vosso povo e a casa paterna!
12 Que o Rei se encante com vossa beleza! *
Prestai-lhe homenagem: é vosso Senhor!

13 O povo de Tiro vos traz seus presentes, *
os grandes do povo vos pedem favores.
14 Majestosa, a princesa real vem chegando, *
vestida de ricos brocados de ouro.

15 Em vestes vistosas ao Rei se dirige, *
e as virgens amigas lhe formam cortejo;
16 entre cantos de festa e com grande alegria, *
ingressam, então, no palácio real’.

17 Deixareis vossos pais, mas tereis muitos filhos; *
fareis deles os reis soberanos da terra.
18 Cantarei vosso nome de idade em idade, *
para sempre haverão de louvar-vos os povos!

Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo. *
Como era no princípio, agora e sempre. Amém.

#24horasparaoSenhor

24 horas para o Senhor (7a. hora)

João 17, 2-26Salmo 118(119),169-176

Meditação sobre a Palavra de Deus na Lei
Sua misericórdia se estende de geração em geração, a todos os que o respeitam (Lc 1,50).
169 Que o meu grito, ó Senhor, chegue até vós; *
fazei-me sábio como vós o prometestes!
170 Que a minha prece chegue até à vossa face; *
conforme prometestes, libertai-me!

171 Que prorrompam os meus lábios em canções, *
pois me fizestes conhecer vossa vontade!
172 Que minha língua cante alegre a vossa lei, *
porque justos são os vossos mandamentos!

173 Estendei a vossa mão para ajudar-me, *
pois escolhi sempre seguir vossos preceitos!
174 Desejo a vossa salvação ardentemente *
e encontro em vossa lei minhas delícias!

175 Possa eu viver e para sempre vos louvar; *
e que me ajudem,ó Senhor, vossos conselhos!
176 Se eu me perder como uma ovelha, procurai-me, *
porque nunca esqueci vossos preceitos!

Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo. *
Como era no princípio, agora e sempre. Amém.

#24horasparaoSenhor

24 horas para o Senhor (6a. hora)

João 16, 29-33Salmo 49(50)

O culto que agrada a Deus
Não vim revogar a Lei, mas consumar (cf. Mt 5,17).

1 Falou o Senhor Deus, chamou a terra, *
do sol nascente ao sol poente a convocou.
2 De Sião, beleza plena, Deus refulge, *
3 vem a nós o nosso Deus e não se cala.

– À sua frente vem um fogo abrasador, *
ao seu redor, a tempestade violenta.
4 Ele convoca céu e terra ao julgamento, *
para fazer o julgamento do seu povo:

5 “Reuni à minha frente os meus eleitos, *
que selaram a Aliança em sacrifícios!”
6 Testemunha o próprio céu seu julgamento,*
porque Deus mesmo é juiz e vai julgar.

 =7 “Escuta, ó meu povo, eu vou falar; †
ouve, Israel, eu testemunho contra ti: *
Eu, o Senhor, somente eu, sou o teu Deus!

8 Eu não venho censurar teus sacrifícios, *
pois sempre estão perante mim teus holocaustos;
9 não preciso dos novilhos de tua casa *
nem dos carneiros que estão nos teus rebanhos.

10 Porque as feras da floresta me pertencem *
e os animais que estão nos montes aos milhares.
11 Conheço os pássaros que voam pelos céus *
e os seres vivos que se movem pelos campos.

12 Não te diria, se com fome eu estivesse, *
porque é meu o universo e todo ser.
13 Porventura comerei carne de touros? *
Beberei, acaso, o sangue de carneiros?

14 Imola a Deus um sacrifício de louvor *
e cumpre os votos que fizeste ao Altíssimo.
15 Invoca-me no dia da angústia, *
e então te livrarei e hás de louvar-me”.

– Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo. *
Como era no princípio, agora e sempre. Amém.

24 horas para o Senhor (5a hora)

João 19, 31-37Salmo 90(91)

Sob a proteção do Altíssimo

Eu vos dei o poder de pisar em cima de cobras e escorpiões (Lc 10,19).

–1 Quem habita ao abrigo do Altíssimo *
e vive à sombra do Senhor onipotente,
–2 diz ao Senhor: ‘Sois meu refúgio e proteção, *
sois o meu Deus, no qual confio inteiramente’.

–3 Do caçador e do seu laço ele te livra. *
Ele te salva da palavra que destrói.
–4 Com suas asas haverá de proteger-te, *
com seu escudo e suas armas, defender-te.

–5 Não temerás terror algum durante a noite, *
nem a flecha disparada em pleno dia;
–6 nem a peste que caminha pelo escuro, *
nem a desgraça que devasta ao meio-dia;

=7 Podem cair muitos milhares a teu lado, †
podem cair até dez mil à tua direita: *
nenhum mal há de chegar perto de ti.

–8 Os teus olhos haverão de contemplar *
o castigo infligido aos pecadores;
–9 pois fizeste do Senhor o teu refúgio, *
e no Altíssimo encontraste o teu abrigo.

–10 Nenhum mal há de chegar perto de ti, *
nem a desgraça baterá à tua porta;
–11 pois o Senhor deu uma ordem a seus anjos *
para em todos os caminhos te guardarem.

–12 Haverão de te levar em suas mãos, *
para o teu pé não se ferir nalguma pedra.
–13 Passarás por sobre cobras e serpentes, *
pisarás sobre leões e outras feras.

14 ‘Porque a mim se confiou, hei de livrá-lo *
e protegê-lo, pois meu nome ele conhece.
–15 Ao invocar-me hei de ouvi-lo e atendê-lo, *
e a seu lado eu estarei em suas dores.

= Hei de livrá-lo e de glória coroá-lo, †
16 vou conceder-lhe vida longa e dias plenos, *
e vou mostrar-lhe minha graça e salvação’.

Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo. *
Como era no princípio, agora e sempre. Amém.

24 horas para o Senhor (4a. hora)

Marcos 3, 20-21Salmo 11(12)

Oração contra as más línguas

Porque éramos pobres, o Pai enviou o seu Filho (Sto. Agostinho).
2 Senhor, salvai-nos! Já não há um homem bom! *
Não há mais fidelidade em meio aos homens!
3 Cada um só diz mentiras a seu próximo, *
com língua falsa e coração enganador.

4 Senhor, calai todas as bocas mentirosas *
e a língua dos que falam com soberba,
5 dos que dizem: “Nossa língua é nossa força! *
Nossos lábios são por nós! – Quem nos domina?”

6 “Por causa da aflição dos pequeninos, *
do clamor dos infelizes e dos pobres,
– agora mesmo me erguerei, diz o Senhor, *
e darei a salvação aos que a desejam!”

=7 As palavras do Senhor são verdadeiras, †
como a prata totalmente depurada, *
sete vezes depurada pelo fogo.

8 Vós, porém, ó Senhor Deus, nos guardareis *
para sempre, nos livrando desta raça!
– Em toda a parte os malvados andam soltos, *
porque se exalta entre os homens a baixeza.
– Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo. *
Como era no princípio, agora e sempre. Amém.

#24horasparaoSenhor

24 horas para o Senhor (3a. hora)

Lucas 8, 19-21Salmo 3

O Senhor é o meu protetor

Jesus adormeceu e ergueu-se do sono da morte, porque o Senhor era o seu protetor (Sto. Irineu).
2 Quão numerosos, ó Senhor, os que me atacam; *
quanta gente se levanta contra mim!
3 Muitos dizem, comentando a meu respeito: *
“Ele não acha a salvação junto de Deus!”

4 Mas sois vós o meu escudo protetor, *
a minha glória que levanta minha cabeça!
5 Quando eu chamei em alta voz pelo Senhor, *
do Monte santo ele me ouviu e respondeu.
6 Eu me deito e adormeço bem tranquilo; *
acordo em paz, pois o Senhor é meu sustento.

7 Não terei medo de milhares que me cerquem *
e furiosos se levantem contra mim.
= Levantai-vos, ó Senhor, vinde salvar-me! †
8 Vós que feristes em seu rosto os que me atacam, *
e quebrastes aos malvados os seus dentes.
9 Em vós, Senhor, nós encontramos salvação; *
e repouse a vossa bênção sobre o povo!
– Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo. *
Como era no princípio, agora e sempre. Amém.

#24horasparaoSenhor

24 horas para o Senhor (2a. hora)

Lucas 9, 22-35Salmo 1

Felizes aqueles que, pondo toda a sua esperança na Cruz, desceram até a água do batismo (Autor do séc. I).

1 Feliz é todo aquele que não anda *
conforme os conselhos dos perversos;
– que não entra no caminho dos malvados, *
nem junto aos zombadores vai sentar-se;
2 mas encontra seu prazer na lei de Deus *
e a medita, dia e noite, sem cessar.

3 Eis que ele é semelhante a uma árvore *
que à beira da torrente está plantada;
= ela sempre dá seus frutos a seu tempo, †
e jamais as suas folhas vão murchar. *
Eis que tudo o que ele faz vai prosperar,

=4 mas bem outra é a sorte dos perversos. †
Ao contrário, são iguais à palha seca *
espalhada e dispersada pelo vento.

5 Por isso os ímpios não resistem no juízo *
nem os perversos, na assembleia dos fiéis.
6 Pois Deus vigia o caminho dos eleitos, *
mas a estrada dos malvados leva à morte.
– Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo. *
Como era no princípio, agora e sempre. Amém.

#24horasparaoSenhor

24 horas para o Senhor (1a. hora)

24 horas para o Senhor

Salmo 88(89),2-38

As misericórdias do Senhor com a descendência de Davi
Conforme prometera, da descendência de Davi, Deus fez surgir um Salvador, que é Jesus
(At 13,22.23)

2 Ó Senhor, eu cantarei eternamente o vosso amor, *
de geração em geração eu cantarei vossa verdade!
3 Porque dissestes: “O amor é garantido para sempre!” *
E a vossa lealdade é tão firme como os céus.

4 “Eu firmei uma Aliança com meu servo, meu eleito, *
e eu fiz um juramento a Davi, meu servidor:
5 Para sempre, no teu trono, firmarei tua linhagem, *
de geração em geração garantirei o teu reinado!”

6 Anuncia o firmamento vossas grandes maravilhas, *
e o vosso amor fiel, a assembleia dos eleitos,
7 pois, quem pode, lá nas nuvens, ao Senhor se comparar*
e quem pode, entre seus anjos, ser a ele semelhante?

8 Ele é o Deus temível no conselho dos seus santos,*
ele é grande, ele é terrível para quantos o rodeiam.
9 Senhor Deus do universo, quem será igual a vós? *
Ó Senhor, sois poderoso, irradiais fidelidade!

10 Dominais sobre o orgulho do oceano furioso, *
quando as ondas se levantam, dominando as acalmais.
11 Vós feristes a Raab e o deixastes como morto, *
vosso braço poderoso dispersou os inimigos.

12 É a vós que os céus pertencem, e a terra é também vossa!*
Vós fundastes o universo e tudo aquilo que contém.
13 Vós criastes no princípio tanto o norte como o sul; *
o Tabor e o Hermon em vosso nome rejubilam.

14 Vosso braço glorioso se revela com poder! *
Poderosa é vossa mão, é sublime a vossa destra!
15 Vosso trono se baseia na justiça e no direito, *
vão andando à vossa frente o amor e a verdade.

16 Quão feliz é aquele povo que conhece a alegria; *
seguirá pelo caminho, sempre à luz de vossa face!
17 Exultará de alegria em vosso nome dia a dia, *
e com grande entusiasmo exaltará vossa justiça.

18 Pois sois vós, ó Senhor Deus, a sua força e sua glória, *
é por vossa proteção que exaltais nossa cabeça.
19 Do Senhor é o nosso escudo, ele é nossa proteção, *
ele reina sobre nós, é o Santo de Israel!

20 Outrora vós falastes em visões a vossos santos: †
“Coloquei uma coroa na cabeça de um herói *
e do meio deste povo escolhi o meu Eleito.
–21 Encontrei e escolhi a Davi, meu servidor, *
e o ungi, para ser rei, com meu óleo consagrado.

–22 Estará sempre com ele minha mão onipotente, *
e meu braço poderoso há de ser a sua força.
–23 Não será surpreendido pela força do inimigo, *
nem o filho da maldade poderá prejudicá-lo.

–24 Diante dele esmagarei seus inimigos e agressores, *
ferirei e abaterei todos aqueles que o odeiam.
–25 Minha verdade e meu amor estarão sempre com ele, *
sua força e seu poder por meu nome crescerão.

–26 Eu farei que ele estenda sua mão por sobre os mares, *
e a sua mão direita estenderei por sobre os rios.
–27 Ele, então, me invocará: ‘Ó Senhor, vós sois meu Pai, *
sois meu Deus, sois meu Rochedo onde encontro a salvação!’

–28 E por isso farei dele o meu filho primogênito, *
sobre os reis de toda a terra farei dele o Rei altíssimo.
–29 Guardarei eternamente para ele a minha graça *
e com ele firmarei minha Aliança indissolúvel.

–30 Pelos séculos sem fim conservarei sua descendência, *
e o seu trono, tanto tempo quanto os céus, há de durar”.
–31 “Se seus filhos, porventura, abandonarem minha lei *
e deixarem de andar pelos caminhos da Aliança;

–32 se, pecando, violarem minhas justas prescrições *
e se não obedecerem aos meus santos mandamentos:
–33 eu, então, castigarei os seus crimes com a vara, *
com açoites e flagelos punirei as suas culpas.

–34 Mas não hei de retirar-lhes minha graça e meu favor *
e nem hei de renegar o juramento que lhes fiz.
–35 Eu jamais violarei a Aliança que firmei, *
e jamais hei de mudar o que meus lábios proferiram!

–36 Eu jurei uma só vez por minha própria santidade, *
e portanto, com certeza,a Davi não mentirei!
–37 Eis que a sua descendência durará eternamente *
e seu trono ficará à minha frente como o sol;
–38 como a lua que perdura sempre firme pelos séculos, *
e no alto firmamento é testemunha verdadeira”.

– Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo. *
Como era no princípio, agora e sempre. Amém.

#24horasparaoSenhor

Semana Santa 2016 – Programação

“Semana Santa, tempo forte de nossa fé, pois penetramos no grande mistério de nossa redenção.  Somos chamados a caminhar com Cristo, participando com Ele de sua dor, de seu amor, de sua ressurreição. Nele a vida é mais forte que a morte e o amor vence a maldade, a violência, a indiferença.”

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Liturgia do Dia – 04/03/2016 (comentada)

Marcos 12, 28b-34“O profeta nos ensina que é preciso encontrar Deus presente nos acontecimentos da vida e da história.  O caminho da conversão é o amor, como nos ensina Jesus.”

Primeira leitura:  Oséias 14, 2-10

Salmo Responsorial 80, 6-17

Evangelho:  Marcos 12, 28b-34

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A conversão sincera e a confissão dos pecados são exigências reais para o restabelecimento da comunhão com Deus. Todavia é imprescindível reconhecer que somente quem percorre os caminhos do Senhor poderá alcançar o Reino de Deus.  Este caminho é o amor.

Utilizando termos de raríssima beleza, o próprio Deus, através de Oséias, exorta o Povo de Israel a reconhecer os pecados cometidos, renunciar as práticas que os levavam à miséria e acolher o amor divino, de forma lúcida (Compreenda estas palavras o homem sábio, reflita sobre elas o bom entendedor!)

Em Jesus este amor alcança o seu ápice.  Ao ser questionado sobre o primeiro de todos os mandamentos, não se limita a uma resposta superficial, mas mergulha profundamente no cerne da questão:  A centralidade do amor a Deus está necessariamente vinculada ao amor ao próximo. Não há como afirmar que ama a Deus, sem viver este amor pelo semelhante.

O próprio Mestre da Lei, afirma que o amor pelo semelhante vale mais do que todos os holocaustos e sacrifícios, posto que implica que renunciemos à nossas certezas e olhemos o próximo com o mesmo dinamismo e vigor com que Deus nos vê, e mesmo diante de nossa pequenez, nos ama e quer bem.

Jesus introduz, assim, a grande novidade:  o Reino de Deus. E leva-nos a compreender que o Reino não é necessariamente caracterizado por seus aspectos materiais, mas pela plenitude do amor que promove a vida, e realiza a presença de Deus em todos.

“Ouve, meu povo, porque eu sou teu Deus!”

Michelle Neves – Ministra do Acolhimento

Bacharel em Teologia pelo ISCR-ArqRio

Liturgia do Dia – 03/03/2016 (comentada)

lucas 11, 14-23“O povo que escuta a voz de seu Senhor torna-se um povo livre.  Quem não o escuta torna-se escravo.  A escolha é nossa.  Somente nele encontramos a vida verdadeira e a libertação.”

Primeira leitura:  Jeremias 7, 23-28

Salmo Responsorial:  94

Evangelho:  Lucas 11, 14-23

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Acolher a Palavra de Deus é o primeiro e essencial passo para caminhar pela senda da verdadeira felicidade.  Esta abertura do coração caracteriza a ação acolhedora dentro da Igreja, é sua base, é por onde tudo começa. Sem tomar posse da força da Palavra de Deus não há que se falar do acolhimento, não há o que falar sobre ser cristão, não há o que testemunhar.

Este é o destaque da liturgia de hoje. Através de Jeremias o povo é exortado a ouvir e acolher a Palavra que os tornará íntimos do seu Deus, que os conduzirá à felicidade almejada, porém, com os corações empedernidos, voltam-se para as más inclinações, ignoram a ação de Deus que os libertou do Egito, que os conduziu à terra prometida, e pior, execraram os que lhes foram enviados, deliberadamente renunciaram à Verdade, para satisfazer seus interesses imediatistas e mundanos.

O contexto do Evangelho, ocorrido após Jesus ensinar aos seus discípulos a oração que nos abre para as ações do Espírito Santo, o Pai Nosso, apresenta um quadro semelhante.

Ao expulsar os demônios, o texto neotestamentário relata que as multidões ficaram admiradas, ou seja, o fato foi testemunhado por inúmeras pessoas, mas alguns, ou seja uma minoria, tentou desacreditar a idoneidade de Jesus, e ainda tiveram aqueles que buscaram provocar nele uma ação censurável.

A reação de Jesus conduz os presentes a entenderem que Satanás não combate contra si mesmo, contra seus interesses, por isso não faz sentido a acusação diferida contra si, quanto a uma possível aliança com o mal.

As ações de cura e libertação comprovavam que todos ali estavam experimentando a presença do Reino de Deus, logo, estava inaugurada uma nova época, onde só os que acolherem a Boa Notícia trazida por Jesus, poderiam desfrutar.

A Palavra é muito clara sobre o que determina a sorte de cada um:  acolher ou não o Evangelho é escolher se está em Cristo ou contra Ele.  Escolher estar em Cristo, portanto, implica renunciar os apelos e seduções de tudo o que é efêmero, dispersa, destrói, reduz, encaminha para o mal.

Oxalá ouvísseis hoje a voz do Senhor:  Não fecheis os vossos corações!

Michelle Neves – Ministra do Acolhimento

Bacharel em Teologia pelo ISCR-ArqRio

A Catequese do Papa Francisco – 02/03/2016

brasão-papa_-Francisco

CATEQUESE
Praça São Pedro – Vaticano
Quarta-feira, 2 de março de 2016

 

Queridos irmãos e irmãs, bom dia.

Falando da misericórdia divina, evocamos muitas vezes a figura do pai de família, que ama os seus filhos, ajuda-os, cuida deles, perdoa-os. E como pai, educa-os e os corrige quando erram, favorecendo seu crescimento para o bem.

É assim que Deus vem apresentado no primeiro capítulo do profeta Isaías, em que o Senhor, como pai afetuoso, mas também atento e severo, dirige-se a Israel acusando-o de infidelidade e de corrupção, para levá-lo de volta ao caminho da justiça. Começa assim o nosso texto:

“Ouvi, céus, e tu, ó terra, escuta,
é o Senhor quem fala:
“Eu criei filhos e os eduquei;
eles, porém, se revoltaram contra mim.
O boi conhece o seu possuidor
E o asno, o estábulo do seu dono;
Mas Israel não conhece nada,
e meu povo não tem entendimento”. (1, 2-3).

Deus, mediante o profeta, fala ao povo com a amargura de um pai desiludido: fez crescer os seus filhos, e agora eles se rebelaram contra Ele. Até mesmo os animais são fiéis ao seu dono e reconhecem a mão que os alimenta; o povo, em vez disso, não reconhece mais Deus, rejeita compreender. Mesmo ferido, Deus deixa falar o amor, e apela à consciência desses filhos degenerados para que se arrependam e se deixem amar de novo. Isso é o que Deus faz! Vem ao nosso encontro para que nós nos deixemos amar por Deus.

A relação pai-filho, a qual os profetas muitas vezes fazem referência para falar da relação de aliança entre Deus e o seu povo, se desnaturalizou. A missão educativa dos pais busca fazê-los crescer na liberdade, torná-los responsáveis, capazes de realizar obras de bem para si e para os outros. Em vez disso, por causa do pecado, a liberdade se torna pretensão de autonomia, pretensão de orgulho, e orgulho leva à contraposição e à ilusão de autossuficiência.

Eis então que Deus chama seu povo: “Erraram o caminho”. Afetuosamente e amargamente diz o “meu” povo. Deus nunca nos renega; nós somos o seu povo, o mais maldoso dos homens, a mais maldosa das mulheres, os mais maldosos dos povos são seus filhos. E este é Deus: nunca, nunca nos renega! Diz sempre: “Filho, venha”. E esse é o amor do nosso Pai; essa misericórdia de Deus. Ter um pai assim nos dá esperança, nos dá confiança. Esta pertença deveria ser vivida na confiança e na obediência, com a consciência de que tudo é dom que vem do amor do Pai. E, em vez disso, eis a vaidade, a estupidez e a idolatria.

Por isso o profeta se dirige diretamente a esse povo com palavras severas para ajudá-lo a entender a gravidade da sua culpa:

“Ai da nação pecadora […] dos filhos desnaturados!
Abandonaram o Senhor, desprezaram o santo de Israel,
e lhe voltaram as costas” (v. 4).

A consequência do pecado é um estado de sofrimento, do qual sofre as consequências também o país, devastado e tornado como um deserto, a ponto de Sion – isso é, Jerusalém – se tornar inabitável. Onde há rejeição a Deus, à sua paternidade, não há mais vida possível, a existência perde as suas raízes, tudo parece pervertido e destruído. Todavia, também esse momento doloroso é em vista da salvação. A prova é dada para que o povo possa experimentar a amargura de quem abandona Deus, e então confrontar-se com a face desoladora de uma escolha de morte. O sofrimento, consequência inevitável de uma decisão autodestrutiva, deve fazer o pecador refletir para abri-lo à conversão e ao perdão.

E este é o caminho da misericórdia divina: Deus não nos trata segundo as nossas culpas (cfr Sal 103, 10). A punição se torna o instrumento para provocar a refletir. Compreende-se, assim, que Deus perdoa o seu povo, dá graça e não destrói tudo, mas deixa aberta sempre a porta da esperança. A salvação implica a decisão de escutar e se deixar converter, mas permanece sempre um dom gratuito. O Senhor, portanto, na sua misericórdia, indica um caminho que não é aquele dos rituais de sacrifício, mas sim da justiça. O culto é criticado não porque seja inútil em si mesmo, mas porque em vez de exprimir a conversão, pretende substituí-la; e torna assim busca da própria justiça, criando a crença ilusória de que são os sacrifícios que salvam, não a misericórdia divina que perdoa o pecado. Para entender bem: quando uma pessoa está doente, vai ao médico; quando uma pessoa se sente pecadora, vai ao Senhor. Mas se em vez de ir ao médico, vai ao feiticeiro, não cura. Tantas vezes não vamos ao Senhor, mas preferimos ir por caminhos errados, procurando fora Dele uma justificativa, uma justiça, uma paz. Deus, diz o profeta Isaías, não se agrada com o sangue dos touros e dos cordeiros (v. 11), sobretudo se a oferta é feita com mãos sujas do sangue dos irmãos (v. 15). Penso em alguns benfeitores da Igreja que vêm com a oferta – “Pegue para a Igreja essa oferta” – é fruto do sangue de tanta gente explorada, maltratada, escravizada com o trabalho mal pago! Eu direi a essa gente: “Por favor, leve de volta o seu cheque, queime-o”. O povo de Deus, isso é, a Igreja, não precisa de dinheiro sujo, precisa de corações abertos à misericórdia de Deus. É necessário aproximar-se de Deus com mãos purificadas, evitando o mal e praticando o bem e a justiça. Que belo como termina o profeta:

“Cessai de fazer o mal, aprendei a fazer o bem.
Respeitai o direito, protegei o oprimido;
fazei justiça ao órfão, defendei a viúva” 9vv 16-170.

Pensem em tantos refugiados que desembarcam na Europa e não sabem para onde ir. Então, diz o Senhor, os pecados, mesmo se forem vermelhos como a púrpura, se tornarão brancos como a neve, e cândidos como a lã e o povo poderá se nutrir dos bens da terra e viver na paz (v. 19).

É este o milagre do perdão que Deus, o perdão que Deus como Pai, quer dar ao seu povo. A misericórdia de Deus é oferecida a todos e essas palavras do profeta valem também hoje para todos nós, chamados a viver como filhos de Deus.

Liturgia do Dia – 02/03/2016 (comentada)

Mateus 5, 17-19“É a Lei da nova Aliança que devemos observar, pois, em Jesus, ela se realiza plenamente. Seu desejo é que ela esteja presente em nós e no meio de nós.”

Primeria leitura:  Dt 4,1.5-9

Salmo Responsorial:  147

Evangelho:  Mateus 5, 17-19

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Moisés orienta o povo para o cumprimento das leis e decretos ensinados conforme a ordem de Deus, destacando a importância de jamais esquecerem a história do povo, cujo Senhor sempre está presente.

O cumprimento das leis e decretos, conforme a leitura veterotestamentária é condição para realização da vocação de povo escolhido, além de passaporte para adentrar na terra prometida e a garantia de que atrairiam a admiração e o respeito de todas as nações.Mas acima de tudo ela também é uma resposta de fidelidade e amor a Deus libertador.

Em Jesus, portanto, o conjunto normativo encontra a sua plenitude. As Bem-aventuranças (v. 1-12) revelam os caminhos que colocam o povo em comunhão com Deus, pois proclamam a libertação e a justiça do Reino, retratadas pelas ações e Palavras do Filho, que revelam que a observância da lei, é muito mais que o cumprimento de preceitos, mas serve de inspiração para uma sociedade misericordiosa e  comprometida com o bem comum (v. 13-16).

Glorifica o Senhor, Jerusalém!

Michelle Neves – Ministra do Acolhimento

Bacharel em Teologia pelo ISCR-ArqRio

Liturgia do Dia – 01/03/2016 (comentada)

Mateus 18-35“Deus vai nos educando em seu amor, por isso, ensina-nos a ter atitudes carregadas de misericórdia.  O amor verdadeiro perdoa sempre e não tem limites.”

Primeira leitura:  Deuteronômio 3, 25. 34-43

Salmo Responsorial:  24

Evangelho:  Mateus 18-35

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O contexto da primeira leitura revela um quadro de perseguição e sofrimento, onde o reconhecimento do pecado e a súplica pelo perdão aparecem conjuntamente com o desejo da conversão e da restauração da Aliança.

Azarias apresenta a perda de todas as referências do povo que ficou reduzido ao que ele chama de “menor de todos os povos”, porém, mostra que apesar de tudo não perdeu a sua referência maior, cravada no seu coração:  a fé.

O Deus de Israel é invocado por Azarias de forma estruturalmente similar ao Pai Nosso; a santidade e glória do Pai são lembradas para suplicar o perdão e a conversão dos pecadores arrependidos e por conseguinte a renovação da Aliança e continuidade da caminhada.

Se na primeira leitura estamos diante de um povo arrependido que suplica o perdão, a conversão e a renovação da Aliança, a questão é tratada sob um prisma complementar no no Evangelho.

Ao questionar sobre quantas vezes deve perdoar os que pecaram contra si, Pedro é chamado a ir além. Jesus ensina que a misericórdia não é somente um conceito, mas um ideal de vida, e com uma dimensão semelhante ao infinito, ainda que os fatos enfrentados ultrapassem quaisquer critérios socialmente aceitáveis.

Em resumo, Jesus orienta Pedro a agir como Deus Pai e como em curto espaço de tempo também agirá, mostrando através de si, que é no Perdão que encontramos o caminho da salvação.

Neste sentido, também podemos afirmar que o perdão é o critério que aponta quem são os verdadeiros filhos de Deus, que agem em semelhança àquele que é Santo, como visto no início do tempo quaresmal:  “sede santos, porque vosso Pai é Santo”.

Não somos, portanto, chamados a viver a misericórdia por uma mera convenção social, mas porque esta foi usada para conosco, por isso ela é um imperativo, pelo qual não podemos prescindir, se realmente desejamos alcançar a glória que nos é reservada.

O perdão  é o caminho de vida e de libertação!

Michelle Neves – Ministra do Acolhimento

Bacharel em Teologia pelo ISCR-ArqRio

Liturgia do Dia – 29/02/2016 (comentada)

Lucas 4, 24-30“A Palavra nos ensina que precisamos progredir em nossa vida cristã.  A fé sincera nos purifica e quem acolhe o Evangelho de Jesus, sem rebeldia e sem racionalismos, descobre a sua verdade.”

Primeira leitura:  2 Reis 5-15a

Salmo Responsorial:  41

Evangelho:  Lucas 4, 24-30

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A liturgia de hoje mostra que a resistência para acolher a vontade de Deus, é o que nos afasta da possibilidade de receber os seus dons.

Já na primeira leitura, Naamã, general do exército da Síria, superou as diferenças e foi em busca de sua cura, em Israel, porém, apesar do seu zelo diplomático, foi dispensado pelo rei..  Ao ir ao encontro de Elizeu, este também não teve com ele o menor cuidado, limitando-se a determinar, através de um mensageiro, que se lavasse no Jordão.

Claro que diante de tanta frieza, não poderia se esperar que Naamã outra reação, senão a indignação e a irritação. Ele, como um homem pagão, não estava disposto a compreender a fé no Deus de Israel, mas estava focado tão somente na sua cura, segundo os seus critérios de ação, por isso decidiu dar meia volta e partir.

Assim, temos que não está centralizada nos protagonistas da Primeira leitura a chave do entendimento da reflexão de hoje, mas na jovem escrava, no mensageiro, nos servos e na esposa de Naamã.  Foi através da simplicidade da ação e palavras desses mediadores que a vontade de Deus se fez presente: o caminho da cura e conversão aconteceu.

A caminhada de Jesus também foi traçada por gestos de simplicidade e por isso que quando afirmou que o que impedia Israel de receber as graças de Deus era o fato de não acolherem os seus dons, mas esperarem que Ele correspondesse as expectativas humanas, os ânimos se inflamaram e um ódio mortal tomou conta de todos na sinagoga. Mas Cristo passou no meio deles e continuou o seu caminho, a sua missão.

Estejamos abertos às surpresas de Deus e suas intervenções, lembrando que são nos gestos simples que ele nos chama a acolhê-lo, inclusive para nos tornar instrumentos de sua ação misericordiosa na vida de tantos irmãos e irmãs, pela da simplicidade e do amor.

Purificai e protegei a vossa Igreja, governando-a constantemente, pois sem vosso auxílio ela não pode salvar-nos!

Michelle Neves – Ministra do Acolhimento

Bacharel em Teologia pelo ISCR-ArqRio

 

 

Liturgia do Dia – 28/02/2016 (comentada)

Lucas 13, 1-9“A paciência de Deus se contrapõe com a pressa de nossos dias.  Se ainda não aconteceu a nossa conversão, Ele nos oferece nova chance, por meio de seu Filho Jesus. Porém, um dia a árvore infrutífera será cortada.  O tempo de Deus chama-se agora.”

Primeira leitura: Êxodo 3, 1-8a. 13-15

Salmo Responsorial:  102

Segunda leitura: 1Coríntios 10, 1-6. 10-12

Evangelho:  Lucas 13, 1-9

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Irmãos caríssimos em Cristo, neste santo tempo quaresmal somos chamados a escutar com mais atenção ainda a santa Palavra que o Senhor nos dirige. Escutemos com seriedade, porque Aquele que nos fala é o mesmo Deus santo que, do meio da chama da sarça, falou com Moisés… Aquele diante de quem Moisés cobriu o rosto e tirou as sandálias.. Com Deus não se brinca, meus caros; de Deus não podemos fazer pouco impunemente!

Assim, estejamos atentos, pois durante os quarenta dias deste período sagrado que nos prepara para a Páscoa, toda a Igreja é chamada a recordar-se que é o novo Israel, um povo consagrado a Deus, reunido pelo Senhor do meio de todas as nações, consagrado pelo sangue precioso de Cristo, separado do mundo e enviado ao mundo para no mundo fazer brilhar a glória do Senhor…

Somos, meus queridos em Cristo, um povo santo, um povo sacerdotal: um povo de testemunhas do Senhor diante da humanidade e de intercessores pela inteira humanidade diante do Senhor… O que era o antigo Israel de modo figurativo e, em certo sentido, provisório, somos nós agora de modo pleno e definitivo.

Deste modo, nestes dias quaresmais, a Igreja toda e cada um de nós deve voltar ao deserto com a mente, com o coração, com a recordação, com o afeto… A Igreja deve estar atenta ao antigo Israel, pois, como diz o santo Apóstolo, os fatos ocorridos com o antigo povo “aconteceram para serem exemplos para nós, a fim de que não desejemos coisas más, como fizeram aqueles no deserto” e não murmuremos como eles murmuraram e não sejamos infiéis como eles foram…

Atenção, meus amados em Cristo! Atenção para não pensarmos: “Somos a Igreja de Cristo, somos o povo da eterna aliança, nada de mal nos acontecerá!” Não caiamos nesta ilusão! O próprio São Paulo nos recorda hoje: “Quem julga estar de pé, tome cuidado para não cair”. E ainda mais, Jesus, no Evangelho, nos exorta gravemente à conversão!

Se a Igreja é a vinha do Senhor, que jamais será rejeitada, nós somos como aquela figueira que, se no período da paciência de Deus não der fruto, será cortada do meio da vinha! Eis a Quaresma: tempo da paciência do Senhor para nós, o tempo de produzir frutos que permaneçam!

Caríssimos meus, é tão significativa e urgente a exortação do Senhor Jesus no Evangelho deste hoje! Vede: Chegam com uma novidade para Jesus: Pilatos, que odiava os judeus e não perdia oportunidade para provocá-los, havia mandado matar uns galileus revoltosos e, para cúmulo do desprezo pelos judeus, ordenara misturar o sangue dos mortos com o dos animais a serem sacrificados no Templo… Uma profanação, uma ignomínia! Certamente, quem veio trazer a notícia triste não meditou no sentido dela… Jesus tira daí uma lição com palavras cortantes. Escutemos o Senhor: “Vós pensais que esses galileus eram mais pecadores do que todos os outros galileus, por terem sofrido tal coisa? Eu vos digo que não. Mas se vós não vos converterdes, ireis morrer todos do mesmo modo”. E o nosso Mestre completa, recordando um acidente de pouco tempo atrás em Jerusalém: “E aqueles dezoito que morreram, quando a torre de Siloé caiu sobre eles? Pensais que eram mais culpados do que todos os outros moradores de Jerusalém? Eu vos digo que não. Mas, se não vos converterdes, ireis morrer todos do mesmo modo”!

O que Jesus quer dizer? Pensai vós, irmãos, que os que morrerem nas guerras ou tragédias naturais são mais pecadores que nós todos? Pensais que estas coisas são simples castigo de Deus? Não! Jesus não aceita este tipo simplório de raciocínio! Mas, uma coisa é certa para o nosso Salvador: esses acontecimentos trágicos devem ser sinais para nós; devem nos recordar o quanto somos frágeis, o quanto a vida passa, o quanto não temos em nossas mãos os nossos dias! Então, se formos sérios ante tais fatos, essas dolorosas realidades tornam-se uma palavra de Deus para nós, um apelo à conversão, um convite a levar Deus a sério e Nele fundamentar nossa existência!

Mais ainda: se a morte do corpo, provocada por tais tragédias nos entristece, que dizer da Morte eterna, da morte da alma, do inferno? Por isso Jesus nos previne: “Se não vos converterdes perecereis todos” – e aí de uma morte pior, definitiva, eterna!

Caros irmãos, não brinquemos com Deus! Certamente Ele é o Pai amoroso de Jesus e, desde o santo Batismo é também o nosso Pai; mas, é ao mesmo tempo, o Deus santo: Aquele em relação ao Qual sempre haverá uma enorme distância: somos criaturas, Ele é o Criador; somos tão limitados, Ele é Infinito! “Não te aproximes! Tira as sandálias dos pés: o lugar em que pisas é santo!”

Insisto, irmãos amados: não brinquemos com o Senhor Deus: aproveitemos este tempo quaresmal, tempo da paciência divina, para a nossa conversão. E aí, então, iremos conhecendo o verdadeiro Nome de Deus: “Eu sou o que serei!”, isto é: “Eu sou o que serei para vós! Na medida em que caminhardes Comigo, em Mim fundamentando vossa existência, sabereis por experiência quem Eu sou!”

Não se pode conhecer a Deus teoricamente; não se pode experimentar a proximidade e doçura do Senhor sem caminhar com Ele, a Ele confiando nossa vida! Vamos, irmãos, insisto mais uma vez: nosso Deus é o Deus fiel, o Deus de amor e misericórdia, capaz de ver nossas misérias, conhecer nossas angústias e descer até o chão de nossa existência para nos libertar e nos dar vida em plenitude. Mas, para isto, é necessário levá-Lo a sério e entrar no caminho de conversão a Ele!

Que o Senhor Jesus nos conceda esta graça da verdadeira conversão!

Que pela Sua santíssima paixão Ele nos livre de banalizar os apelos que nos faz e nos coloque no reto caminho de uma verdadeira mudança de vida!

Assim a esta altura da Quaresma, vejamos bem como estamos na nossa oração, na penitência, sobretudo dos alimentos, e na esmola. Vejamos como estamos no combate ao pecado que há em nós!

Irmãos queridos, não recebais a graça de Deus em vão!

Que nos ajude o nosso Jesus, Ele que na Sua misericórdia, hoje nos dirige tão séria advertência.

A Ele a glória para sempre. Amém.

Meditação para o III Domingo da Quaresma

Por Dom Henrique Soares da Costa – Bispo de Palmares/PE

Liturgia do Dia – 27/02/2016 (comentada)

Lucas 15, 1-3.11-32“A  misericórdia divina nos faz viver de novo.  Jesus mostra-nos como o Pai não conta com o que fizemos, mas olha para dentro do coração humano disposto a acolhê-lo de novo.  Assim age o Deus de Jesus.”

Primeira leitura: Miqueias 7, 14-15.18-20

Salmo Responsorial: 102, 1-12

Evangelho:  Lucas 15, 1-3.11-32

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O contexto da primeira leitura retrata um povo que enfrenta grandes dificuldades ao sair do exílio, levando o profeta a levantar seu lamento e súplica ao Senhor, que o responde ao reservar um local no deserto para apascentar o rebanho disperso.  A segurança e a confiança são restabelecidas e, assim, com emoção do profeta se dirige a Deus Pai, que os perdoa e apaga suas culpas, comovido pelo sofrimento dos seus filhos, um hino de louvor.

A Parábola do Filho Pródigo, tal qual todas as demais parábolas da misericórdia, apresentadas em Lucas 15, são dirigidas aos que tem o coração empedernecido, mais precisamente fariseus e chefes da lei, que criticavam Jesus pela forma como acolhia os pecadores e se familiarizava com eles, no momento comum das refeições.

Jesus revela o rosto do Pai que, apesar da infidelidade do filho, jamais em seu coração, afastou-se dele, por isso o recebe de volta com extrema alegria,  restabelecendo-o na aliança, e restituindo a sua dignidade perdida.

A compaixão do Pai não é compreendida e aceita pelos filho mais velho, que negou-se a participar da festa promovida.  Ele, assim como fariseus e chefes da lei, fechado em si mesmo, não era capaz de compreender que onde há amor, não há espaço para a falta de acolhida e transborda a misericórdia.

A quaresma é o tempo, por excelência, do encontro do Pai com seu(s) filho(s).  Não importa os erros cometidos, Ele sempre nos espera e já nos tem reservado a túnica e a aliança que nos faz pertencentes ao seu reino.

É o tempo de abrir o coração e se preparar para viver com a alegria, o perdão e a misericórdia, daquele que nos deseja a verdadeira felicidade.

O Senhor é indulgente e favorável!

Michelle Neves – Ministra do Acolhimento

Bacharel em Teologia pelo ISCR-ArqRio

Liturgia do Dia – 26/02/2016 (comentada)

Mateus 21, 33-43“Sem Deus, nada podemos fazer. Jesus, enviado pelo Pai, veio nos revelar a verdade do Reino.  Como ouvintes autênticos, só podemos acolher na vida a verdade de Cristo.”

Primeira leitura:  Gênesis 37, 3-4.12-13a. 17b-28

Salmo Responsorial:  104, 6-21

Evangelho:  Mateus 21, 33-43. 45-46

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José, assim como Jesus, são os escolhidos do Senhor, para a realização do seu projeto da salvação da humanidade, todavia, suscitam o ódio e a inveja, que são redimensionados a partir das inúmeras ações divinas, que tornam suas vidas instrumento de vida e liberdade.

A perseguição é a tônica que serve de pano de fundo, nas leituras de hoje, para nos revelar que o perdão é o canal que nos levará a tornarmo-nos um só em Cristo e que a ambição desmedida sempre levará o homem à perdição.

Jesus foi enfático ao dirigir-se as autoridades de seu tempo, colocando-os na condição de responsáveis pela vinha predileta de Deus, Israel.  Acusa-os de apropriarem-se indevidamente dos frutos, maltratando e matando não só os profetas que lhes eram enviados, como também o herdeiro da vinha:  o próprio Jesus.

O diálogo de Jesus com os chefes dos sacerdotes e anciãos do povo mostra que estão eles diante da última oportunidade para se tornarem colaboradores de Deus.  A força de suas palavras não provocou a conversão, mas gerou o desejo de prendê-lo, o que demonstra a que ponto rejeitavam a missão que lhes fora designada pelo Senhor. 

A verdade de Jesus se realiza.  Morto fora da vinha, ressuscitou pela vontade do Pai e a Cidade Santa, destruída no ano 70 d.C, foi tomada pelo Império Romano.  Os pagãos convertidos tornaram-se os novos vinhateiros que apresentavam a Deus, cada dia mais, novos frutos, que acolhiam de todo coração a fé cristã.  A universalidade da salvação, permite-nos que a partir de então, possamos todos nós, nos considerar, povo escolhido: Israel!

Devemos atentar, no entanto, que estamos inseridos na liturgia de hoje não só como povo escolhido, mas como irmãos de José e vinhateiros malvados e ambiciosos, que precisam de conversão.

Assim, a Palavra de hoje nos ensina o quanto é positivo e universal o chamado que revela que nem a ódio, nem a inveja são capazes de nos afastar do amor misericordioso de Deus.

A história revela que as perseguições são vencidas pelo perdão, e que foi na fragilidade humana do crucificado, que o filho do Homem demonstrou o seu poder, cultivado no amor e no compromisso com os frutos da vinha, por isso também é a virtude que nos faz participantes da natureza divina.

Lembrai sempre as maravilhas do Senhor!

Michelle Neves – Ministra do Acolhimento

Bacharel em Teologia pelo ISCR-ArqRio

Programação Completa (ArqRio): 24 horas para o Senhor

24 horas para o Senhor.JPGNo período da Quaresma, a Arquidiocese do Rio de Janeiro realiza mais uma vez a iniciativa “24 horas para o Senhor”, nos dias 4 e 5 de março, na qual as igrejas de todo o mundo vão abrir as portas para que os fiéis busquem o Sacramento da Reconciliação. A iniciativa é motivada pelo Papa Francisco e acontece desde 2013.

Na mensagem para a Quaresma de 2016, o Pontífice definiu esse período como propício à conversão e aproximação da misericórdia divina.

Escreve o Papa: “Na Bula de proclamação do Jubileu, fiz o convite para que ‘a Quaresma deste Ano Jubilar seja vivida mais intensamente como tempo forte para celebrar e experimentar a misericórdia de Deus’. Com o apelo à escuta da Palavra de Deus e à iniciativa ‘24 horas para o Senhor’, quis sublinhar a primazia da escuta orante da Palavra, especialmente a palavra profética. Com efeito, a misericórdia de Deus é um anúncio ao mundo, mas cada cristão é chamado a fazer pessoalmente a experiência de tal anúncio”.

Para o padre Ramón Nascimento, da coordenação de pastoral, os esforços dos vicariatos para promover o evento já apresentaram resultados significativos, uma vez que a Igreja é chamada a sair dos próprios muros e ir ao encontro dos demais.

“Esse é um tempo de profunda oração, mas também de ação missionária. O Papa pede para que não fiquemos num lugar comum, mas que possamos ir ao encontro daqueles que não estão nas nossas igrejas, daqueles que não estão nos nossos bancos. Por isso, há alguns anos cada vicariato da nossa arquidiocese tem se esforçado para realizar essas ações, e já tivemos experiências magníficas, como as confissões e adorações em um shopping e nas ruas. Esta é a proposta do ‘24 horas para o Senhor’: levar a experiência da misericórdia nesse tempo tão favorável da Quaresma, saindo do lugar comum e indo ao encontro do outro, proclamando a misericórdia e a graça de Deus”, finalizou.

De acordo com o coordenador de pastoral, monsenhor Joel Portella Amado, esse é o momento das pessoas encontrarem o Senhor, mas também dos fiéis apresentarem Cristo àqueles que ainda não O conhecem.

“Essa é a terceira vez que acontece, e agora com o Ano da Misericórdia. Não se trata de manter a rotina tradicional de uma paróquia, mas sim de encontrar locais missionários onde se possa manifestar a misericórdia de Deus. A arquidiocese propõe que sejam realizados em praças, ruas, onde encontrem pessoas que normalmente não vão às paróquias. São 24 horas para que as pessoas encontrem ao Senhor, mas também para que a Igreja apresente Cristo às pessoas. Esse é o modo muito significativo de uma Igreja em saída”, afirmou.

Programação:

Vicariato Jacarepaguá

Dia 4 de março, das 17h às 19h, no Américas Shopping, na Avenida das Américas, 15500, no Recreio dos Bandeirantes, haverá confissões, Terço de Nossa Senhora e a noite de louvor, com animação da Comunidade Católica Shalom. Às 23h, na Paróquia Imaculada Conceição, na Rua Humberto Cozzo, 41, no Recreio dos Bandeirantes, será o início da vigília.

No dia 5 de março, a missa de encerramento na paróquia será presidida pelo Cardeal Orani João Tempesta, às 18h.

Vicariato Urbano

Dia 4 de março, às 20h, será a concentração na Igreja Nossa Senhora do Carmo da Lapa, no Largo da Lapa, s/nº, na Lapa. Às 21h, haverá celebração penitencial presidida pelo Cardeal Orani João Tempesta. Às 22h30, haverá exposição do Santíssimo. As confissões serão nos Arcos da Lapa e na igreja. Nos Arcos e ruas da Lapa acontecerão Via-Sacra e evangelização com as comunidades Aliança da Misericórdia e Shalom, a coordenação da RCC e as Irmãs Missionárias da Caridade.

No dia 5 de março, às 16h, haverá missa de encerramento na igreja, presidida pelo bispo auxiliar Dom Luiz Henrique da Silva Brito.

Vicariato Leopoldina

Dia 4 de março, das 17h às 22h, na Capela São João Paulo II, no Shopping Via Brasil, na Rua Itapera, 500, em Irajá, acontecerá a abertura. Das 22h até 6h do dia 5 de março, o evento terá continuidade na Paróquia Nossa Senhora Aparecida, na Ilha do Governador. A partir das 6h até  12h, o encontro acontecerá na capela do Hospital Geral de Bonsucesso e, em seguida, a partir do meio-dia até as 17h, será no Santuário da Penha. Nos locais acontecerão momentos de louvor, adoração, pregação e confissão. Os fiéis também podem participar do gesto de misericórdia, levando alimentos não perecíveis.

Vicariato Oeste

No dia 4 de março, das 8h30 às 19h, na Paróquia São Sebastião e Santa Cecília, na Praça da Fé, s/nº, em Bangu, haverá adoração, confissão e evangelização. A missa será às 12h. Após a celebração, o evento terá continuidade no calçadão de Bangu até 17h. Às 19h30 haverá missa seguida de show da cantora Ziza Fernandes e vigília.

Vicariato Norte

No dia 4 de março, cada paróquia do vicariato vai realizar a própria programação. No dia 5, das 9h às 17h, na Praça da Estação do Metrô Estácio, terá início a adoração com o padre Antônio José, além de pregação, música e evangelização.

Vicariato Santa Cruz

No dia 4 de março, às 17h, no calçadão no Centro de Campo Grande, terá início a adoração, além de confissões e evangelização. Às 22h, haverá vigília em todas as foranias do vicariato.

No dia 5, o evento terá início a partir das 8h, com confissões, adoração, evangelização e oração do Terço da Misericórdia. Às 15h30 será a missa de encerramento.

Vicariato Sul

No dia 4 de março, das 17h até 17h do dia 5, na Paróquia Nossa Senhora da Glória, no Largo do Machado, haverá vigília, adoração, confissão e celebração de missa.

No dia 4 de março, na PUC-Rio, Avenida Padre Leonel França, s/nº, na Gávea, haverá confissão, adoração, orações e missa.

Vicariato Suburbano

No dia 4 de março, das 15h às 18h, em todas as paróquias haverá terço, adoração ao Santíssimo e missa.

No dia 5 de março, pela manhã confissões nas paróquias, e no Santuário Arquidiocesano da Divina Misericórdia, na Rua Divina Misericórdia, s/nº, em Vila Valqueire, tarde de oração às 15h e missa às 18h.

Fonte: ArqRio

Liturgia do Dia – 25/02/2016 (comentada)

lucas 16, 19-31“São felizes os que observam o que nos ensina o Senhor com sua Palavra.  Vencem o egoísmo e experimentam o sabor da eternidade, do amor, da presença do Reino.”

Primeira leitura:  Jeremias 17, 5-10

Salmo Responsorial:  1

Evangelho:  Lucas 16, 19-31

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A  Vida e Morte mais uma vez se contrapõem na liturgia quaresmal, hoje de uma forma diferente, não é uma proposta, mas serve para apontar o que esperar da escolha entre confiar no homem e com isso afastar-se de Deus e, confiar no Senhor e nutrir-se para uma vida frutuosa.

Ao destacar o centro da afetividade do homem, a primeira leitura de hoje nos coloca em alerta sobre o quanto é temerário acreditar nas boas intenções humanas, uma vez que somente o Senhor é capaz de avaliar se são boas ou más, se nos aproximam ou afastam de Deus, e neste caso, nos levam à morte, por isso, a riqueza e a pobreza deve ser vista com as lentes da misericórdia.

A história de Lázaro, retrata esta realidade e levanta o véu da eternidade.  De um lado o homem, sem nome, que vivia de exterioridades, morre e é enterrado, sua vida era marcada pelo conforto e ostentação.  À sua porta, Lázaro (que significa: Deus ajudou),  cheio de feridas, que eram lambidas por cachorros,  que ignorado pelo homem rico, esperava as sobras que eram desperdiçadas, e que quando morreu, foi levado pelos anjos para junto de Abraão.

Deus hoje nos alerta para as escolhas que realizamos em nossas vidas e que definirão o nosso destino na eternidade, não é ser rico ou pobre, segundo os critérios humanos, que fará diferença no futuro.

A liturgia nos alerta que estabelecer caminhos, a partir de critérios materialistas e independente dos ensinamentos da Palavra, resulta em afastar-se dAquele que nutre, e portanto, dá sentido à nossa existência, tornando-a verdadeiramente frutuosa.

A ilusão da auto-suficiência e a indiferença, especialmente em relação aos mais pobres e necessitados, é causa de perdição dos que depositam sua confiança na perecível força humana.  Egoístas, buscam ser criadores de si mesmos.  Acima do bem e do mal, são árvores plantadas no deserto, incapazes de se sustentar frente ao seu destino final.

Lázaro, o homem que na visão do rico, não tinha qualquer valor, pois nem mesmo se incomodava com sua necessidade imediata, por outro lado, revela que a verdadeira confiança em Deus, opera no silêncio de quem espera a felicidade e a paz que só o Criador é capaz de trazer.

Dia após dia, Lázaro cultivou, a seu modo, a semente da eternidade, não rejeitando nem mesmo os cachorros que vinham lamber suas feridas, o que prova que a confiança em Deus caminha lado-a-lado com a solidariedade e a misericórdia, que o rico não teve nem mesmo por seu semelhante, e por isso pereceu.

Em seu tormento o homem rico busca um gesto de conforto (e não de misericórdia), e aqui de forma definitiva o Evangelho reitera que são as opções desta vida que definem o imutável destino na vida eterna, ressaltando que, aos que tem o coração empedernido e não acolhem a Verdade do Evangelho, nem mesmo o milagre da Ressurreição, nos diz taxativamente Jesus, podem salvá-los.

É feliz quem a Deus se confia!

Michelle Neves – Ministra do Acolhimento

Bacharel em Teologia pelo ISCR- ArqRio

A Catequese do Papa Francisco – 24/02/2016

brasão-papa_-Francisco

CATEQUESE
Praça São Pedro – Vaticano
24 de fevereiro de 2016

Queridos irmãos e irmãs, bom dia.

Prosseguimos as catequeses sobre misericórdia na Sagrada Escritura. Em diversos trechos, fala-se dos poderosos, dos reis, dos homens que estão “no alto”, e também da sua arrogância e de seus abusos. A riqueza e o poder são realidades que podem ser boas e úteis ao bem comum, se colocadas a serviço dos pobres e de todos, com justiça e caridade. Mas quando, como muitas vezes acontece, são vividas como privilégio, com egoísmo e prepotência, transformam-se em instrumentos de corrupção e morte. É o que acontece no episódio da vinha de Nabot, descrito no Primeiro Livro dos Reis, no capítulo 21, sobre o qual nos concentramos hoje.

Neste texto, conta-se que o rei de Israel, Acab, quer comprar a vinha de um homem de nome Nabot, porque esta vinha fica ao lado do palácio real. A proposta parece legítima, até mesmo generosa, mas em Israel as propriedades terrenas eram consideradas quase inalienáveis. De fato, o livro do Levítico prescreve: “A terra não se venderá para sempre, porque a terra é minha e vós estais em minha casa como estrangeiros ou hóspedes” (lv 25, 23). A terra é sagrada, é um dom do Senhor, que como tal deve ser protegido e conservado, enquanto sinal da benção divina que passa de geração em geração e garantia de dignidade para todos. Compreende-se, então, a resposta negativa de Nabot ao rei: “Deus me livre de ceder-te a herança de meus pais!” (1 Re 21, 3).

O rei Acab reage a esta recusa com amargura e desdenho. Sente-se ofendido – ele é o rei, o poderoso – diminuído na sua autoridade de soberano, e frustrado na possibilidade de satisfazer o seu desejo de posse. Vendo-o tão abatido, sua mulher Jezabel, uma rainha pagã, que tinha incrementado os cultos idólatras e fazia matar os profetas do Senhor (cfr 1 Re 18, 4), – não era bruta, era má! – decide intervir. As palavras com que se dirige ao rei são muito significativas. Sintam a maldade que está por trás dessa mulher: “Não és tu, porventura, o rei de Israel? Vamos! Come, não te incomodes. Eu te darei a vinha de Nabot de Jezrael” (v. 7). Ela coloca ênfase sobre o prestígio e sobre o poder do rei que, segundo o seu modo de ver, é questionado pela recusa de Nabot. Um poder que ela, em vez disso, considera absoluto, e pelo qual todo desejo do rei poderoso se torna ordem. O grande Santo Ambrósio escreveu um pequeno livro sobre este episódio. Chama-se “Nabot”. Fará bem a nós lê-lo neste tempo de Quaresma. É muito belo, é muito concreto.

Jesus, recordando essas coisas, nos diz: “Sabeis que os chefes das nações as subjugam e que os grandes as governam com autoridade. Não seja assim entre vós. Todo aquele que quiser tornar-se grande entre vós, se faça escravo vosso. E o que quiser tornar-se entre vós o primeiro, se faça vosso escravo” (Mt 20, 25-27). Se se perde a dimensão do serviço, o poder se transforma em arrogância e se torna domínio e opressão. É justamente isso que acontece no episódio da vinha de Nabot. Jezabel, a rainha, de modo não convencional, decide eliminar Nabot e coloca em ação o seu plano. Serve-se da aparência enganadora de uma lei perversa: envia, em nome do rei, cartas aos anciãos e aos notáveis da cidade ordenando que pelos falsos testemunhos acusem publicamente Nabot de ter maldito Deus e o rei, um crime a punir com a morte. Assim, morto Nabot, o rei pode tomar posse de sua vinha. E esta não é uma história de outros tempos, é também história de hoje, dos poderosos que, para ter mais dinheiro, exploram os pobres, exploram as pessoas. É a história do tráfico de pessoas, do trabalho escravo, das pessoas que trabalham na informalidade e com o salário mínimo para enriquecer os poderosos. É a história dos políticos corruptos, que querem mais e mais! Por isso dizia que nos fará bem hoje ler aquele livro de Santo Ambrósio sobre Nabot, porque é um livro da atualidade.

Eis onde leva o exercício de uma autoridade sem respeito pela vida, sem justiça, sem misericórdia. E eis a que coisa leva a sede de poder: torna-se ganância que quer possuir tudo. Um texto do profeta Isaías é particularmente iluminante a respeito. Nisso, o Senhor adverte contra a ganância dos ricos latifundiários que querem possuir sempre mais casas e terrenos. E diz o profeta Isaías:

“Ai de vós que ajuntai casa a casa,
e que acrescentai campo a campo,
até que não haja mais lugar
e que sejais os únicos proprietários da terra” (Is 5, 8).

E o profeta Isaías não era comunista! Deus, porém, é maior que a maldade e que os jogos sujos feitos pelos seres humanos. Na sua misericórdia envia o profeta Elias para ajudar Acab a se converter. Agora voltemos a página, e como segue a história? Deus vê este crime e bate ao coração de Acab e o rei, colocado diante do seu pecado, entende, se humilha e pede perdão. Que belo seria se os poderosos exploradores de hoje fizessem o mesmo! O Senhor aceita o seu arrependimento; todavia, um inocente foi morto e a culpa cometida terá consequências inevitáveis. O mal realizado deixa traços dolorosos e a história dos homens carrega feridas.

A misericórdia mostra também neste caso o caminho mestre que deve ser percorrido. A misericórdia pode curar as feridas e pode mudar a história. Abra o teu coração à misericórdia! A misericórdia divina é mais forte que o pecado dos homens. É mais forte, este é o exemplo de Acab! Nós conhecemos seu poder, quando recordamos a vinda do Inocente Filho de Deus que se fez homem para destruir o mal com o seu perdão. Jesus Cristo é o verdadeiro rei, mas o seu poder é completamente diferente. O seu trono é a cruz. Ele não é um rei que mata, mas, ao contrário, dá a vida. O seu andar em direção a todos, sobretudo aos mais frágeis, derrota a solidão e o destino de morte a que conduz o pecado. Jesus Cristo, com a sua proximidade e ternura, leva os pecadores no espaço da graça e do perdão. E essa é a misericórdia de Deus.

Liturgia do Dia – 24/02/2016 (comentada)

Mateus 20, 17-28.jpg“Os injustos não toleram a firmeza e a harmonia dos justos.  Sentem-se perturbados e querem fazê-lo calar.  Assim foi com Jesus e os profetas.  Mas a verdade não morre, ela triunfa sempre.”

Primeira leitura:  Jeremias 18, 18-20

Salmo Responsorial:  30

Evangelho: Mateus 20, 17-28

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A liturgia de hoje aponta-nos alguns aspectos interessantes e presentes na vida cristã: a perseguição, a ambição, o serviço e a humildade.

Jeremias sofre o complô de autoridades que, sob o argumento de proteger um valor maior, buscam desmoralizá-lo, mas a verdade que está por trás da perseguição sofrida é o fato dele ter desvendado as práticas injustas que oprimiam a sociedade e desvirtuavam o sentido do que podemos considerar bem comum.

Sentindo-se só,  Jeremias roga a Deus a punição de seus inimigos declarados, alegando ter intercedido por eles no passado.   Ele assume aqui o aspecto do servo sofredor que se realizará plenamente em Jesus.

O diferencial é que ao contrário de Jeremias, Jesus, que foi perseguido pela mesma classe de autoridades, tem plena consciência de que o sofrimento vindouro o levará à morte (e a conseguinte ressuscitação), e que com ela toda a humanidade será libertada da escravidão do pecado, abrindo o caminho para que todos experimentem a definitiva Misericórdia de Deus.

Jesus anuncia aos seus discípulos o que está para acontecer, porém, o destaque não está numa reação de indignação ou pesar por parte dos presentes, mas na figura da mãe de Tiago e João, que não aparece no Evangelho de São Marcos, onde o pedido de uma posição privilegiada no Reino é feita diretamente pelos dois apóstolos (Mc 10, 35-36).

A reação dos outros dez discípulos revelam personalidades que ainda careciam de correção. Não haviam compreendido no que consistia a missão dAquele o qual já reconheciam como o Messias e ainda se preocupavam com posições e talvez privilégios. O anúncio profético de seu sofrimento e morte era insignificante demais para quem só se interessava com a glória do seu reinado.

Quando Jesus afirma aos discípulos que estes não sabiam o que estavam pedindo, quis dizer que antes de participar da glória do Rei, era necessário participar de sua humilhação, pois aquela se manifestaria no calvário e não num palácio ou na ostentação dos que se reconheciam como poderosos.
Jesus destacou que a história da humanidade prova que o poder sem serviço ao povo é a causa da tirania e da opressão e não tem qualquer relação com o Reino de Deus, que consiste em se colocar a serviço dos semelhantes, com amor, para transformar as trevas em luz.

Mais uma vez a liturgia nos chama a acolher o exemplo de Jesus, o filho do Homem que assume a sua condição de enviado do Pai, para servir aqueles aos quais se fez semelhante e entregar a sua vida pela salvação de todos, mesmo que a conspiração exista, ainda que venha de onde não poderia vir.

A comunhão com Deus se confirma definitivamente na cruz e o nosso ‘sim’ não deve ser condicionado pela perseguição ou pelo desejo de gozar de privilégios, mas deve corresponder à vocação ao serviço, especialmente direcionado aos mais pobres, necessitados e excluídos.

A ambição se mostra também na vida cotidiana contrária ao projeto de Deus, e é nociva para os que realmente desejam dar testemunho da fé, por isso é singular tomar por mantra diário, por exemplo, a Oração de São Francisco, e seguir as práticas quaresmais —jejum, esmola e oração— que nos auxiliam neste crescimento espiritual.

Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz.
Onde houver ódio, que eu leve o amor;
Onde houver ofensa, que eu leve o perdão;
Onde houver discórdia, que eu leve a união;
Onde houver dúvida, que eu leve a fé;
Onde houver erro, que eu leve a verdade;
Onde houver desespero, que eu leve a esperança;
Onde houver tristeza, que eu leve a alegria;
Onde houver trevas, que eu leve a luz.

Ó Mestre, Fazei que eu procure mais
Consolar, que ser consolado;
compreender, que ser compreendido;
amar, que ser amado.
Pois é dando que se recebe,
é perdoando que se é perdoado,
e é morrendo que se vive para a vida eterna.

Michelle Neves – Ministra do Acolhimento

Bacharel em Teologia pelo ISCR-ArqRio

Liturgia do Dia – 23/02/2016 (comentada)

mateus 23,1-12“O profeta nos diz que é preciso fazer o bem, procurar o direito. Jesus não gosta do formalismo religioso que não traz a vida e, por isso, nos ensina a servir primeiro.  Quem ama serve, ajuda, consola.”

Primeira leitura:  Isaías 1,10.16-20

Salmo Responsorial:  49

Evangelho:  Mateus 23,1-12

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A Palavra de hoje nos chama a refletir sobre a nossa inclinação para o pecado, a partir do contexto entre o dizer e o fazer.

Isaías dirige aos senhores da lei e ao povo os ensinamentos do Senhor sobre o que precisa ser feito para que todos possam “comer as coisas boas da terra”, exortando-os à conversão, como forma de se apagar os pecados cometidos.

Destaca quão grande é a misericórdia de Deus, retratada pela transformação da vermelhidão do pecado, na alvidez e suavidade da neve, quando a iniquidade é substituída por uma vida justa.

O Salmista encerra a termo o desejo do Senhor para que todos sejam salvos, ressaltando que não basta a mera repetição dos preceitos e a exaltação da Aliança firmada, se as leis e os conselhos divinos são ignorados, ou até mesmo odiados, por causa de interesses individuais e individualistas.  É a desobediência e a infidelidade a Deus que provoca a sua ira, e consequentemente impede a salvação da humanidade.

Jesus, desmascara abertamente a incoerência de fariseus e escribas, que usam de suas posições para enaltecer suas posições e oprimir o povo, sem contudo cumprir os preceitos por eles mesmos impostos.

Ele alerta para que o povo não deixe de fazer o que a Lei de Moisés prescreve, todavia sem imitá-los, ou mesmo adotar suas personalidades, que levam à perdição. O prestígio pessoal não deve se sobrepor à verdade do Evangelho, sob risco de profanar o sentido da vontade de Deus, ou ainda, tornar-se uma idolatria.

Se somos cidadãos do céu, como nos disse São Paulo na Segunda Leitura do Segundo Domingo do Evangelho, nossa conduta não deve ser mundana.  Apontar o caminho e não segui-lo é hipocrisia, contra-testemunho e revela a malícia de quem busca ostentar uma posição (ou cargo) para oprimir os outros e manter-se numa ilegítima posição de autoridade.

O caminho da santidade se faz a partir do olhar fixo em Jesus, o único e verdadeiro Mestre e Guia, cuja a humildade, a simplicidade e a disponibilidade para o serviço aos mais pobres e necessitados dá a tônica de quem realmente deseja alcançar a Misericórdia.

A todos que procedem retamente, eu mostrarei a salvação que vem de Deus!

Michelle Neves – Ministra do Acolhimento

Bacharel em Teologia pelo ISCR-ArqRio

Liturgia do Dia – 22/02/2016 (comentada)

mateus 16, 13-19“‘Tú és Pedro.  Eu te darei as chaves do Reino dos Céus’, diz Jesus.  É na fidelidade ao Senhor, à sua Palavra, que nos tornamos, de fato, uma Igreja viva e presente.”

Primeira leitura:  1 Pedro 5, 1-4

Salmo Responsorial:  22

Evangelho:  Mateus 16, 13-19

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A festa da Cátedra de Pedro é celebrada neste dia em Roma, desde o século IV,
como sinal da unidade da Igreja, fundada sobre o Apóstolo. Por isso a melhor contribuição para nossa reflexão vem dos sermões de São Leão Magno, Papa.

Dos Sermões de São Leão Magno, papa

(Sermo 4 de Natali ipsius, 2-3: PL 54,149-151)    (Séc.V)

A Igreja de Cristo ergue-se na firmeza da fé do apóstolo Pedro

Dentre todos os homens do mundo, Pedro foi o único escolhido para estar à frente de todos os povos chamados à fé, de todos os apóstolos e de todos os padres da Igreja. Embora no povo de Deus haja muitos sacerdotes e pastores, na verdade, Pedro é o verdadeiro guia de todos aqueles que têm Cristo como chefe supremo. Deus dignou-se conceder a este homem, caríssimos filhos, uma grande e admirável participação no seu poder. E se ele quis que os outros chefes da Igreja tivessem com Pedro algo em comum, foi por intermédio do mesmo Pedro que isso lhes foi concedido.

A todos os apóstolos o Senhor pergunta qual a opinião que os homens têm a seu respeito; e a resposta de todos revela de modo unânime as hesitações da ignorância humana. 

Mas, quando procura saber o pensamento dos discípulos, o primeiro a reconhecer o Senhor é o primeiro na dignidade apostólica. Tendo ele dito: Tu és Cristo, o Filho do Deus vivo, Jesus lhe respondeu: Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu (Mt 16,16-17). Quer dizer, és feliz, porque o meu Pai te ensinou, e a opinião humana não te iludiu, mas a inspiração do céu te instruiu; não foi um ser humano que me revelou a ti, mas sim aquele de quem sou o Filho unigênito.

Por isso eu te digo, acrescentou, como o Pai te manifestou a minha divindade, também eu te revelo a tua dignidade: Tu és Pedro (Mt 16,18). Isto significa que eu sou a pedra inquebrantável, a pedra principal que de dois povos faço um só (cf. Ef 2,20.14), o fundamento sobre o qual ninguém pode colocar outro. Todavia, tu também és pedra, porque és solidário com a minha força. Desse modo, o poder, que me é próprio por prerrogativa pessoal, te será dado pela participação comigo.

E sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la (Mt 16,18). Sobre esta fortaleza, construirei um templo eterno. A minha Igreja destinada a elevar-se até ao céu deverá apoiar-se sobre a solidez da fé de Pedro.

O poder do inferno não impedirá esse testemunho, os grilhões da morte não o prenderão; porque essa palavra é palavra de vida. E assim como conduz aos céus os que a proclamam, também precipita no inferno os que a negam.

Por isso, foi dito a São Pedro: Eu te darei as chaves do Reino dos céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que desligares na terra, será desligado nos céus (Mt 16,19). 

Na verdade, o direito de exercer esse poder passou também para os outros apóstolos, e o dispositivo desse decreto atingiu todos os príncipes da Igreja. Mas não é sem razão que é confiado a um só o que é comunicado a todos. O poder é dado a Pedro de modo singular, porque a sua dignidade é superior à de todos os que governam a Igreja.

Liturgia do Dia – 21/02/2016 (comentada)

Lucas 9, 28-36“Abrão dialogou com Deus, falou e ouviu sua Palavra.  Paulo nos garante que seremos glorificados em Cristo.  No Evangelho, o Pai apresenta o Filho: ‘Este é o meu filho, o Escolhido.  Escutem o que ele diz!’ .  E o Filho nos convida a subir a montanha com Ele para rezar.”

Primeira leitura:  Gênesis 15, 5-12; 17-18

Salmo Responsorial:  26

Segunda leitura:  Filipenses 3, 17-4-1

Evangelho:  Lucas 9, 28b-36

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As leituras de hoje tem, em si, inúmeros sinais bastante significativos, e por isso, importantes para nossa caminhada quaresmal.

O diálogo entre Abrão e o Senhor tem como pano de fundo a vida nômade, relatada por tradições patriarcais judaicas, com seus sonhos e esperanças de se encontrar uma terra fértil e, a construção de uma família numerosa, que não só perpetuasse a existência do clã, mas também se impusesse aos inimigos.

Abrão vive a experiência de estar diante de Deus neste cenário e lamenta-se por já em idade avançada não conseguir lograr êxito em sua busca.

O texto veterotestamentário para fins didáticos pode ser subdivido em três momentos:

1º – Inicia com a afirmação divina que garante a Abrão uma descendência numerosa e apresenta-o a como alguém que acolheu a promessa divina e isso fora considerado como a aceitação radical dos desígnios de Deus. Ato contínuo, fora também lhe prometida a terra, ou seja, a realização plena (descendência e terra) de seus sonhos e esperanças, surgindo o questionamento sobre como ter certeza de que iria possuí-la.

2º – A resposta é o chamado para que se inicie os preparativos do cerimonial da aliança, correspondente à tradição dos povos antigos, onde em meio aos animais partidos e suas metades dispostas frente-a-frente, os que subscreviam o pacto passavam entre elas e pronunciavam seu compromisso, estabelecendo para si uma maldição, caso não cumprissem o pactuado. Deus apresentou-se então como um braseiro fumegante que passou por entre os animais divididos.

3º – O texto bíblico confirma que a promessa de Deus está garantida, todavia, não diz se Abrão também passou entre os animais, o que configura que nada lhe foi exigido. A promessa de Deus é gratuita e incondicional.

Assim, somos convidados, já na primeira leitura, a observar que, não importa a nossa realidade de vida, devemos, tal qual Abrão, ter uma atitude de acolhida da Palavra (olhar para o céu!), com confiança absoluta em Deus, que para começar a agir só precisa que tenhamos fé, e nos coloquemos a caminho. No mais ele tudo fará.

A carta de São Paulo aos Filipenses, fora escrita quando estava preso.  É bem interessante observar os aspectos humanos dele a partir de sua conversão.  Mesmo em condição adversa e já ciente de seu fim, o Apóstolo dos Gentios seguia firme seu destino, não abandonava e procurava cuidar das comunidades construídas, exortando-os na fé e orientando-os na caminhada. 

Aqui, Paulo coloca-os em sobreaviso, em relação aos que falseiam e deturpam o Evangelho de Jesus para obter vantagens que pudessem satisfazer os seus interesses egoístas e egocêntricos, exigindo do Povo o cumprimento da Lei Mosaica, na tentativa de reduzir a mensagem de Cristo nas comunidades cristãs, que aderiram a proposta da Salvação, em Jesus Cristo.

Paulo destaca a condição da comunidade de Filipos, como cidadãos do céu, pois perseverando na fé, serão como Jesus, ressuscitados em corpo glorioso, em alusão ao evento da transfiguração, testemunhada por Pedro, João e Tiago.

Assim como Abrão fora conduzido a olhar para o céu, a comunidade de Filipos é convidada a fazer o mesmo: focar nas coisas futuras e permanentes, que só a promessa de Deus é capaz de satisfazer.

E é exatamente isso que a Transfiguração do Senhor representa, cheia de sinais que unem o Antigo Testamento e a Boa Nova, é o pré-anuncio da vitória da vida sobre a morte:

O Monte Tabor é uma montanha localizada na Galiléia que alcança 660 metros de altitude, e cuja a visão é a do relevo ondulado da região, o lago de Genezaré, o cimo nevado do monte Hermon, o monte Carmelo e o Mar Mediterrâneo, ou seja, tem uma vista privilegiada e pode ser contemplado de longe, também foi um local de acontecimentos importantes.

Segundo os relatos do Antigo Testamento, foi nas imediações do Tabor que Débora reuniu secretamente dez mil israelitas, sob o comando de Barac, que puseram em fuga o exército de Sisara ( Js 4, 4-24); os madianitas e amalecitas mataram os irmãos de Gedeão (Js 8, 18-19); e, uma vez conquistada a terra prometida, o monte delimitou as fronteiras entre as tribos de Zabulão, Issacar e Neftali (Js 19, 10-34), que o consideravam sagrado e ofereciam sacrifícios no seu cume (Dt 33, 19). O profeta Oseias combateu esse culto porque, no seu tempo, sem dúvida  era cismático e também idolátrico (Os 5, 1), e Jeremias compara-o com a supremacia de Nabucodonosor sobre os seus inimigos (Jr 46, 18); o salmista junta-o ao Hermon para simbolizar nos dois todos os montes da terra (Sal 89, 13).

Sob o ponto de vista da topografia, o Monte é composto de quatro fontes de água, que se unem formando o Rio Jordão,  principal responsável pelo abastecimento hídrico de Israel.

O Rio Jordão foi testemunha do Batismo de Jesus; da partilha de terras entre Abraão e Ló; em um de seus afluentes Jacó lutou com um misterioso homem até que fosse por ele abençoado; da atuação de Elias e Eliseu; da travessia do povo hebreu recém saído do Exílio, viabilizando a chegada na Terra Prometida.  Por tudo isso, a tradição cristã ao utilizar o expressão “cruzar o Jordão”, quer dizer: vencer a morte, através do batismo, e tornar-se uma nova criatura.  U um “detalhe” importante: O próprio Jesus é por João reconhecido como a fonte de água viva, no episódio de seu encontro com a Samaritana.

A presença de Pedro, Tiago e João na Transfiguração, é fundamentada a partir do Evangelho segundo Marcos 9, 1-13, que inicia com a garantia de Jesus que alguns dos que estavam com ele, num dos povoados de Cesaréia, não morreriam sem ter visto o Reino de Deus.

Como é do conhecimento comum, Pedro foi o apóstolo escolhido para construção da Igreja e para apascentar as ovelhas, Tiago fora o primeiro apóstolo mártir de Cristo, João, aquele que acompanhou Jesus até a morte de cruz, o que recebeu, a maternidade ofertada a toda a humanidade, através de si,  e que correra à frente do próprio Pedro, para constatar a novidade trazida por Maria Madalena. Era com eles que Jesus estava no Getsêmani, e foram eles os autorizados a estar com Jesus na ressurreição da filha de Jairo (Mc 5, 37).

Assim, podemos constatar que Pedro, Tiago e seu irmão João, gozavam de mais intimidade e comunhão com Jesus do que os demais.

É importante abrir um parêntese para dizer que Daniel narra, em sua profecia, uma visão apocalíptica do poder, glória e realeza eterna e indissolúvel de Jesus, que recebera do próprio Deus todos os povos, que o serviam, e que seria testemunhada por aqueles que guardavam intimidade e comunhão com o Senhor, e a quem estavam direcionadas a Lei e as Profecias de outrora.

O sono dos discípulos não difere do sono de Abrão, em ambas as situações revelam o abandono em Deus, ainda que com um toque de medo pelo que vai acontecer, natural da condição humana, o que que não quer dizer ausência de fé.

A construção das tendas, que fazem alusão a “Festa dos Tabernáculos” (ou Festa das Tendas), em que celebrava o êxodo, quando o povo habitava em tendas (sucá) no deserto, revelam a partir da forma como eram construídas, um aspecto ímpar, que devemos considerar: devem ter ao menos três paredes e um teto com ramos que permitem ver o céu.

A presença de Moisés  e Elias no evento da transfiguração do Senhor revela o mistério da fé proferida no Antigo Testamento. A Lei e o Profeta: ambos viram a glória de Deus (Ex 33, 18-23. 34,29-35) (1Reis 19), e agora direcionam o olhar para Jesus, apontando que é através dEle que salvação definitiva acontecerá, e dar-se-á na cruz, logo, é a Ele que se deve seguir (escutar). Assim, é possível afirmar que somente na glória de Cristo é que o Antigo Testamento pode ser compreendido em plenitude.

Na transfiguração, a natureza humana de Jesus fora envolvida pelo Espírito da Glória, tal qual profetizado por Daniel (por isso a importância de citá-lo), transparecendo a sua divindade e realeza, que se repetiu publicamente com a sua Ressurreição, e não por acaso falavam, Jesus, Moisés e Elias sobre sua paixão.

A glória de Cristo só pode ser compreendida por quem olha para o céu com fé, nutre a intimidade e a comunhão com Deus, e caminha até a cruz redentora, logo, a fé cristã só pode estar centralizada na cruz, pois somente quem a ama se alegrará no final dos tempos.

A Transfiguração  é para todos nós, que amamos a cruz, nutrimos a intimidade e a comunhão com Deus Trino, e temos fé, o penhor da também nossa, futura glorificação.

O Senhor é minha Luz e Salvação!

Michelle Neves – Ministra do Acolhimento

Bacharel em Teologia pelo ISCR – ArqRio