Catequese do Papa Francisco – 28/10/2015

brasão-papa_-Francisco

CATEQUESE
Praça São Pedro – Vaticano
Quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Nas audiências gerais sempre há muitas pessoas ou grupos pertencentes a outras religiões; mas hoje essa presença é de tudo particular, para recordar juntos o 50º aniversário da Declaração do Concílio Vaticano II Nostra aetate, sobre as relações da Igreja católica com as religiões não cristãs. Este tema estava fortemente no coração do beato Papa Paulo VI, que já na festa de Pentecostes do ano precedente ao fim do Concílio tinha instituído o Secretariado para os não cristãs, hoje Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso. Exprimo por isso a minha gratidão e as minhas calorosas boas vindas a pessoas e grupos de diversas religiões, que hoje quiseram estar presentes, especialmente aos que vieram de longe.

O Concílio Vaticano II foi um tempo extraordinário de reflexão, diálogo e oração para renovar o olhar da Igreja católica sobre si mesma e sobre o mundo. Uma leitura dos sinais dos tempos em vista de uma atualização orientada por uma dupla fidelidade: fidelidade à tradição eclesial e fidelidade à história dos homens e das mulheres do nosso tempo. De fato, Deus, que se revelou na criação e na história, que falou por meio dos profetas e totalmente no seu Filho feito homem (cfr Eb 1, 1) se dirige ao coração e ao espírito de todo ser humano, que busca a verdade e os meios de praticá-la.

A mensagem da Declaração Nostra aetate é sempre atual. Retomamos brevemente alguns pontos:
– a crescente inter-dependência dos povos (cfr n.1);
– a busca humana de um sentido da vida, do sofrimento, da morte, interrogações que sempre acompanham o nosso caminho (cfr n.1);
– a comum origem e o comum destino da humanidade (cfr n.1);
– a unicidade da família humana (cfr n. 1);
– as religiões como busca de Deus e do Absoluto, dentro das várias etnias e culturas (cfr n. 1);
– o olhar benevolente e atento da Igreja sobre religiões: essa não rejeita nada nelas que é de belo e verdadeiro (cfr n. 2);
– a Igreja olha com estima os crentes de todas as religiões, apreciando o seu empenho espiritual e moral (cfr n. 3);
– a Igreja, aberta ao diálogo com todos, é ao mesmo tempo fiel à verdade em que acredita, a começar por aquela de que a salvação oferecida a todos tem a sua origem em Jesus, único salvador e que o Espírito Santo está em ação, como fonte de paz e amor.

São tantos os eventos, as iniciativas, as relações institucionais ou pessoais com as religiões não cristãs destes últimos 50 anos que é difícil recordar todos. Um acontecimento particularmente significativo foi o Encontro de Assis em 27 de outubro de 1986. Esse foi desejado e promovido por São João Paulo II, que um ano antes, então há 30 anos, dirigindo-se aos jovens muçulmanos em Casablanca desejava que todos os crentes em Deus favorecessem a amizade e a união entre os homens e os povos (19 de agosto de 1985). A chama, acesa por Assis, estendeu-se em todo o mundo e constitui um permanente sinal de esperança.

Uma especial gratidão a Deus merece a verdade e a própria transformação que teve nesses 50 anos a relação entre cristãos e judeus. Indiferença e oposição se transformaram em colaboração e benevolência. De inimigos e estranhos, nos tornamos amigos e irmãos. O Concílio, com a Declaração Nostra aetate, traçou o caminho: “sim” à redescoberta das raízes judaicas do cristianismo; “não” a toda forma de antissemitismo e condenação de toda injúria, discriminação e perseguição que delas derivam. O conhecimento, o respeito e a estima mútua constituem o caminho que, se vale de modo peculiar para a relação com os judeus, vale analogamente também para as relações com as outras religiões. Penso em particular nos muçulmanos, que – como recorda o Concílio – “adoram o Deus único, vivo e subsistente, misericordioso e onipotente, criador do céu e da terra, que falou aos homens” (Nostra aetate, 5). Esses se referem à paternidade de Abraão, veneram Jesus como profeta, honram a sua Mãe virgem, Maria, esperam o dia do julgamento e praticam a oração, a esmola e o jejum (cfr ibid).

O diálogo do qual precisamos não pode ser nada a não ser aberto e respeitoso, e então se revela frutuoso. O respeito recíproco é condição e, ao mesmo tempo, finalidade do diálogo inter-religioso: respeitar o direito dos outros à vida, à integridade física, às liberdades fundamentais, isso é, liberdade de consciência, de pensamento, de expressão e de religião.

O mundo olha para nós crentes, convida-nos a colaborar entre nós e com os homens e as mulheres de boa vontade que não professam religião alguma, pede-nos respostas efetivas sobre numerosos temas: a paz, a fome, a miséria que aflige milhões de pessoas, a crise ambiental, a violência, em particular aquela cometida em nome da religião, a corrupção, a degradação moral, as crises da família, da economia, das finanças e, sobretudo, da esperança. Nós crentes não temos receitas para esses problemas, mas temos um grande recurso: a oração. E nós crentes rezamos. Devemos rezar. A oração é o nosso tesouro, à qual chegamos segundo as respectivas tradições, para pedir os dons que a humanidade anseia.

Por causa da violência e do terrorismo, difundiu-se uma atitude de suspeita e até mesmo de condenação das religiões. Na verdade, embora nenhuma religião esteja imune do risco de desvios fundamentalistas ou extremistas em indivíduos ou grupos (cfr Discurso ao Congresso dos EUA, 24 de setembro de 2015), é necessário olhar para os valores positivos que elas vivem e propagam e que são fonte de esperança. Trata-se de elevar o olhar para ir além. O diálogo baseado no confiante respeito pode levar a sementes de bem que, por sua vez, se tornam brotos de amizade e de colaboração em tantos campos e, sobretudo, no serviço aos pobres, aos pequenos, aos idosos, no acolhimento aos migrantes, na atenção a quem está excluído. Podemos caminhar juntos cuidando uns dos outros e da criação. Todos os crentes, de todas as religiões. Juntos podemos louvar ao Criador por ter nos dado o jardim do mundo para cultivar e proteger como um bem comum e podemos realizar projetos partilhados para combater a pobreza e assegurar a cada homem e mulher condições de vida digna.

O Jubileu Extraordinário da Misericórdia, que está diante de nós, é uma ocasião propícia para trabalhar juntos no campo das obras de caridade. E neste campo, onde conta sobretudo a compaixão, podem se unir a nós tantas pessoas que não se sentem crentes ou que ainda estão em busca de Deus e da verdade, pessoas que colocam no centro a face do outro, em particular do irmão ou da irmã necessitados. Mas a misericórdia ao qual somos chamados abraça toda a criação, que Deus nos confiou para que sejamos protetores, e não exploradores ou, pior ainda, destruidores. Devemos sempre nos propor a deixar o mundo melhor do que como o encontramos (cfr Enc. Laudato si’, 194), a partir do ambiente em que vivemos, por pequenos gestos da nossa vida cotidiana.

Queridos irmãos e irmãs, quanto ao futuro do diálogo inter-religioso, a primeira coisa que devemos fazer é rezar. E rezar uns pelos outros: somos irmãos! Sem o Senhor, nada é possível; com Ele, tudo se torna possível! Possa a nossa oração – cada um segundo a própria tradição – possa aderir plenamente à vontade de Deus, que deseja que todos os homens se reconheçam como irmãos e vivam como tal, formando a grande família humana na harmonia da diversidade.

Liturgia do Dia – 25/10/2015

marcos 10,46-52“A Palavra de Deus proclama a alegria a quem é dado ver e experimentar a ação libertadora e compassiva do Senhor. Ele conduz o seu povo, chamando-o para um caminho de fé e de seguimento.”

Primeira leitura:  Jeremias 31, 7-9

Salmo Responsorial:  125 (126)

Segunda leitura:  Hebreus 5, 1-6

Evangelho:  Marcos 10, 46-52

A Catequese do Papa Francisco – 21/10/2015

brasão-papa_-Francisco

CATEQUESE
Praça São Pedro – Vaticano
Quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Na reflexão passada, refletimos sobre as promessas importantes que os pais fazem às crianças, desde quando elas são pensadas no amor e concebidas no ventre.

Podemos acrescentar que, olhando mais de perto, toda a realidade familiar é fundada sobre a promessa – pensar bem nisso: a identidade familiar é fundada sobre promessas – pode-se dizer que a família vive da promessa de amor e de fidelidade que o homem e a mulher fazem um ao outro. Essa comporta o empenho de acolher e educar os filhos; mas inclui também o cuidado com os pais idosos, em proteger e socorrer os membros mais frágeis da família, em ajudar-se de perto para realizar as próprias qualidades e aceitar os próprios limites. E a promessa conjugal se alarga a partilhar as alegrias e os sofrimentos de todos os pais, as mães, as crianças, com generosa abertura nos confrontos da convivência humana e do bem comum. Uma família que se fecha em si mesma é como uma contradição, uma mortificação da promessa que a fez nascer e a faz viver. Não esquecer nunca: a identidade da família é sempre uma promessa que se alarga e se alarga a toda a família e também a toda a humanidade.

Nos nossos dias, a honra da fidelidade à promessa da vida familiar parece muito enfraquecida. Por um lado, porque um mal entendido direito de buscar a própria satisfação, a todo custo em qualquer relação, é exaltado como um princípio não negociável de liberdade. Por outro lado, porque se confia exclusivamente à constrição da lei os vínculos da vida de relação e do compromisso pelo bem comum. Mas, na verdade, ninguém quer ser amada só pelos próprios bens ou por obrigação. O amor, bem como a amizade, devem a sua força e a sua beleza justamente a este fato: que geram um laço sem tirar a liberdade. O amor é livre, a promessa da família é livre e essa é a beleza. Sem liberdade não há amizade, sem liberdade não há amor, sem liberdade não há matrimônio.

Portanto, liberdade e fidelidade não se opõem uma a outra, antes, se apoiam proximamente, seja nas relações interpessoais, seja naquelas sociais. De fato, pensemos nos danos que produzem, na civilização da comunicação global, a inflação de promessas não mantidas, em vários campos, e a indulgência pela infidelidade à palavra dada e aos compromissos firmados!

Sim, queridos irmãos e irmãs, a fidelidade é uma promessa de compromisso que se auto-realiza, crescendo na livre obediência à palavra dada. A fidelidade é uma confiança que “quer” ser realmente partilhada e uma esperança que “quer” ser cultivada junto. E falando de fidelidade, me vem em mente aquilo que os nossos idosos, os nossos avós nos contam: “Naquele tempo, quando se fazia um acordo, um aperto de mão bastava, porque havia a fidelidade às promessas”. E também isso, que é um fato social, tem origem na família, no aperto de mão do homem e da mulher para seguir adiante juntos, toda a vida.

A fidelidade às promessas é uma verdadeira obra-prima de humanidade! Se olhamos para a sua beleza corajosa, nós nos apaixonamos, mas se desprezamos a sua corajosa perseverança, estamos perdidos. Nenhuma relação de amor – nenhuma amizade, nenhuma forma de querer bem, nenhuma felicidade do bem comum – chega ao nível do nosso desejo e da nossa esperança se não chega a habitar esse milagre da alma. E digo “milagre” porque a força e a persuasão da fidelidade, apesar de tudo, não para de nos encantar e de nos maravilhar. A honra à palavra dada, a fidelidade à promessa não podem ser compradas ou vendidas. Não podem ser constrangidas com a força, mas nem protegidas sem sacrifício.

Nenhuma outra escola pode ensinar a verdade do amor se a família não o faz. Nenhuma lei pode impor a beleza e a herança deste tesouro da dignidade humana se o laço pessoal entre amor e geração não a escreve na nossa carne.

Irmãos e irmãs, é necessário restituir honra social à fidelidade do amor: restituir honra social à fidelidade do amor! É necessário tirar da clandestinidade o cotidiano milagre de milhões de homens e mulheres que regeneram o seu fundamento familiar, do qual toda sociedade vive, sem ser capaz de garanti-lo de nenhum outro modo. Não por acaso, esse princípio da fidelidade à promessa do amor e da geração está escrito na criação de Deus como uma benção perene, à qual foi confiado o mundo.

Se São Paulo pode afirmar que no laço familiar é misteriosamente revelada uma verdade decisiva também pelo laço do Senhor e da Igreja, quer dizer que a própria Igreja encontra aqui uma benção para proteger e com a qual sempre aprender, antes mesmo de ensiná-la e discipliná-la. A nossa fidelidade à promessa é sempre mais confiada à graça e à misericórdia de Deus. O amor pela família humana, em tempos bons ou ruins, é um ponto da honra para a Igreja! Deus nos conceda estarmos à altura dessa promessa. E rezemos pelos padres do Sínodo: que o Senhor abençoe o trabalho deles, desenvolvido com fidelidade criativa, na confiança que Ele, em primeiro lugar, o Senhor – Ele em primeiro lugar – é fiel às suas promessas. Obrigado.

Missa em Ação de Graças pelo Ano da Vida Consagrada

ano da vida consagradaNo próximo dia 31, sábado, às 09:00h, teremos a oportunidade singular de celebrarmos juntos, na Paróquia São Paulo Apóstolo, a Missa em Ação de Graças pelo Ano da Vida Consagrada, presidida por nosso Cardeal Arcebispo, Dom Orani João Tempesta.
Em poucas palavras a Vida Consagrada consiste no modo de viver de pessoas que deixaram as suas vidas profissionais e familiares em abnegação de si mesmo, na vivência de votos ou conselhos evangélicos, no seguimento de Jesus e em busca de viver o Cristianismo servindo à Igreja, através da evangelização dos povos e em promoção da dignidade humana.
Vivemos um momento da história onde a oração comunitária merece total atenção e a missão de reunir o maior número de cristãos em nossa paróquia, nesse dia, é de cada um de nós, por isso, contamos com a sua colaboração, para convidar o maior número de pessoas a estar conosco.
Fomos agraciados pela delicada concessão da presença da Imagem Peregrina de Nossa Senhora Aparecida, que pela segunda vez em nossa comunidade e, e da relíquia da Santa Teresinha do Menino Jesus, esta pela primeira vez entre nós, em comemoração ao mês das missões, que ficará conosco, a princípio, de 09:00 às 12:00, do dia 31 de outubro.
Assim, teremos uma manhã de muitas bênçãos a qual somos chamados a partilhar esse momento com tantos irmãos e irmãs, cientes da importância dos fiéis consagrados (leigos ou clérigos) na missão de levar Cristo a toda a criatura e devotos de Nossa Senhora e Santa Teresinha do Menino Jesus.
Pedimos a especial gentileza de compartilhar esta mensagem com todos os seus contatos e nas redes sociais, grupos e onde mais o seu coração alcançar.
Em cristo!
Ministério do Acolhimento

Liturgia do Dia – 18/10/2015

Marcos 10, 35-45“Apresentando o exemplo do servo sofredor, as leituras nos convidam a aproximar-nos da graça de Deus que nos vem por meio de Jesus e permanecer fiéis ao Mestre no serviço e na doação da vida.”

Primeira leitura:  Isaías 53, 10-11

Salmo Responsorial:  32 (33)

Segunda leitura:  Hebreus 4, 14-16

Evangelho:  Marcos 10, 35-45 ou 42-45

A Catequese do Papa Francisco – 14/10/2015

brasão-papa_-Francisco

CATEQUESE
Praça São Pedro – Vaticano
Quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Queridos irmãos e irmãs, bom dia! Hoje como as previsões do tempo estavam um pouco inseguras e se previa a chuva, esta audiência se faz ao mesmo tempo em dois lugares: nós aqui na praça e 700 doentes na Sala Paulo VI que seguem a audiência por telão. Todos estamos unidos e os saudamos com um aplauso.

A palavra de Jesus é forte hoje: “Ai do mundo por causa dos escândalos!”. Jesus é realista e diz: “É inevitável que escândalos aconteçam, mas ai do homem pelo qual o escândalo vem”. Gostaria de, antes de começar a catequese, em nome da Igreja, pedir perdão pelos escândalos que foram cometidos nos últimos tempos, seja em Roma ou no Vaticano, peço perdão.

Hoje vamos refletir sobre um tema muito importante: as promessas que fazemos às crianças. Não falo tanto das promessas que fazemos aqui e ali, durante o dia, para fazê-los felizes ou para estarem bem (talvez com qualquer truque inocente: te dou uma bala e promessas similares…) para levá-los a empenhar-se na escola ou para dissuadi-los a qualquer capricho. Falo de outras promessas, das promessas mais importantes, decisivas para suas expectativas nos confrontos da vida, para sua confiança nos confrontos dos seres humanos, para sua capacidade de conceber o nome de Deus como uma benção. São promessas que nós fazemos para eles.

Nós adultos estamos prontos a falar das crianças como de uma promessa da vida. Todos dizemos: as crianças são uma promessa da vida. E também somos fáceis de nos comovermos dizendo aos jovens que são o nosso futuro, é verdade. Mas me pergunto, às vezes, se somos tão sérios com o seu futuro, com o futuro das crianças e com o futuro dos jovens! Uma pergunta que devemos nos fazer muitas vezes é essa: quanto somos leais com as promessas que fazemos às crianças, fazendo-as vir ao nosso mundo? Nós fazemos com que elas venham ao mundo e essa é uma promessa, o que prometemos a elas?

Acolhimento e cuidado, proximidade e atenção, confiança e esperança, são promessas de base que se podem resumir em uma só: amor. Nós prometemos amor, isso é, amor que se exprime no acolhimento, no cuidado, na proximidade, na atenção, na confiança e na esperança, mas a grande promessa é o amor. Esse é o modo mais justo de acolher um ser humano que vem ao mundo e todos nós aprendemos isso, antes mesmo de sermos conscientes. Eu gosto tanto quando vejo os pais e as mães, quando passo entre vocês, trazendo a mim um menino, uma menina pequeninos e pergunto: “Quanto tempo tem? – “Três semanas, quatro semanas…peço a benção do Senhor”. Também isso se chama amor. O amor é a promessa que o homem e a mulher fazem a cada filho: desde quando foi concebido no pensamento. As crianças vêm ao mundo e se espera de ter confirmada essa promessa: espertam-no de modo total, confiante, indefeso. Basta olhar para elas: em todas as etnias, em todas as culturas, em todas as condições de vida! Quando acontece o contrário, as crianças são feridas por um “escândalo”, por um escândalo insuportável, tão mais grave, pois não têm os meios para decifrá-lo. Não podem entender o que acontece. Deus vigia sobre essa promessa, desde o primeiro instante. Lembram o que disse Jesus? Os Anjos das crianças refletem o olhar de Deus e Deus não perde nunca de vista as crianças (cfr Mt 18, 10). Ai daqueles que traem a sua confiança, ai! O seu confiante abandono à nossa promessa que nos empenha desde o primeiro instante, nos julga.

E gostaria de acrescentar outra coisa, com muito respeito por todos, mas também com muita franqueza. A confiança delas (das crianças) em Deus nunca deveria ser ferida, sobretudo quando acontece por motivo de uma certa presunção (mais ou menos inconsciente) de substituir a Ele. A terna e misteriosa relação de Deus com a alma das crianças não deveria nunca ser violada. É uma relação real, que Deus a quer e Deus a protege. A criança está pronta desde o nascimento para sentir-se amada por Deus, está pronta para isso. Não apenas é capaz de sentir que é amada por si mesma, um filho sente também que há um Deus que ama as crianças.

As crianças, recém-nascidas, começam a receber de presente, junto com a alimentação e os cuidados, a confirmação das qualidades espirituais do amor. Os atos de amor passam através do dom do nome pessoal, a partilha da linguagem, as intenções dos olhares, as iluminações dos sorrisos. Aprendem, assim, que a beleza do laço entre os seres humanos aponta à nossa alma, procura a nossa liberdade, aceita a diversidade do outro, reconhe-o e o respeita como interlocutor. Um segundo milagre, uma segunda promessa: nós – pais e mães – nos doamos a ti para doar você a você mesmo! E este é amor, que traz uma faísca daquele de Deus! Mas vocês, pais e mães, têm essa faísca de Deus que dão aos seus filhos, vocês são instrumento do amor de Deus e isso é belo, belo, belo!

Somente se olhamos as crianças com os olhos de Jesus podemos realmente entender em que sentido, defendendo a família, protegemos a humanidade! O ponto de vista das crianças é o ponto de vista do Filho de Deus. A própria Igreja, no Batismo, faz grandes promessas às crianças, com as quais empenha os pais e a comunidade cristã. A santa Mãe de Jesus – por meio da qual o Filho de Deus chegou a nós, amado e gerado como uma criança – torne a Igreja capaz de seguir o caminho da sua maternidade e da sua fé. E São José – homem justo, que acolheu e protegeu, honrando corajosamente, a benção e a promessa de Deus – nos torne todos capazes e dignos de hospedar Jesus em cada criança que Deus manda sobre a terra.

Senhora Aparecida

Nossa Senhora AparecidaPor Cardeal Dom Orani João Tempesta (*)

A Solenidade da Padroeira do Brasil recorda a proteção da Virgem Maria, sua presença materna e consoladora, experimentada em 1717 por três pobres pescadores, na aurora de nossa história nacional. As redes vazias dos pobres quase se romperam pela abundância de peixes após o “aparecimento” da imagem enegrecida da Imaculada Conceição. Desde então, a pequena imagem humilde e de aparência ínfima recorda ao povo brasileiro a presença materna da Mãe do Senhor na nossa história e na nossa terra. Sim, nesse dia a festa é nossa, do povo brasileiro! Por todo o território nacional, gente de todas as raças que fazem esta Nação canta com devota gratidão: “Viva a Mãe de Deus e nossa, sem pecado concebida! Salve a Virgem Imaculada, a Senhora Aparecida”!

Esta presença materna, carinhosa, providente e atuante da Virgem Santíssima é ilustrada de modo admirável nas leituras da Palavra de Deus que acabamos de ouvir. Primeiramente, a Virgem é evocada pela rainha Ester, que arriscou a vida para salvar o seu povo da condenação à morte. Quem não se comove com o apelo da Rainha? “Se ganhei as tuas boas graças, ó rei, e se for de teu agrado, concede-me a vida – eis o meu pedido! – e a vida do meu povo – eis o meu desejo”! Como tais palavras cabem na boca da Mãe do Senhor! Ela, perfeita e completamente salva e redimida de todo pecado por pura graça de Deus; ela, a Agraciada! Mais que ninguém, ela pode cantar as palavras de Isaías, que o Missal coloca no início da Eucaristia desse dia: “Com grande alegria rejubilo-me no Senhor, e minha alma exultará no meu Deus, pois me revestiu de justiça e salvação, como a noiva ornada de suas jóias”. Maria Virgem, totalmente agraciada, totalmente salva por Deus, não se esquece de nós, filhos que o Filho lhe deu ao pé da cruz:“Salva a vida do meu povo – eis o meu desejo”! Ela é a Mulher do Apocalipse, em luta constante contra a serpente, o antigo Inimigo, que ameaça o povo de Deus; ela é a Mulher que, em Caná, intercede pelos esposos, ensina-nos a fazer o que o Filho disser e cuida para que a água das nossas pobrezas e das nossas angústias seja transformada no vinho da alegria, fruto da ação do Espírito do Cristo ressuscitado.

Esta festa recorda-nos a presença constante de Nossa Senhora na vida da Igreja, na vida do povo brasileiro e na vida de cada um de nós. Não poderia ser diferente! Foi o próprio Cristo quem lhe deu essa missão materna em relação a nós, seus discípulos amados. Recordemo-nos da cena dramática no Calvário. Jesus diz à sua Mãe, indicando o Discípulo Amado, que é cada um de nós, cada cristão, católico ou não: “Mulher, eis o teu filho”! (Jo 19,26). Não foi ela quem escolheu ser nossa Mãe. Não! Foi o Filho mesmo quem lhe deu a missão: “Eis o teu filho, os teus filhos, Virgem Maria! Tu és a Mulher do Gênesis, inimiga da serpente; tu és a Mãe dos viventes, a verdadeira Eva”! Fidelíssima à vontade do Senhor, como sempre foi, a Virgem vela por todos os cristãos; até por aqueles que não lhe têm amor e veneração, chegando mesmo a difamá-la! Mãe dos discípulos do Senhor Jesus, Mãe da Igreja, Virgem Maria! Foi esta maternidade tão amorosa, fecunda e providente que o povo brasileiro experimentou às margens do rio Paraíba do Sul, quando a imagem enegrecida da Imaculada apareceu nas redes dos pescadores. É esta maternidade que nós experimentamos continuamente em nossa vida. Quem de nós não tem uma história para contar a respeito da presença da Virgem no nosso caminho? “Filho, eis a tua Mãe”! (Jo 19,27). Não fomos nós que escolhemos Maria por Mãe. Cristo mesmo no-la deu como aconchego materno. Na Cruz, ele olhou para o Discípulo Amado, para cada um de nós, e deu-nos sua Mãe: “Filho, eis a tua Mãe”! Que generosidade, a do Senhor: deu-nos tudo, seu corpo, seu sangue, sua vida… deu-nos sua Mãe! Realmente, amou-nos até o fim (cf. Jo 13,1).

Jesus olha para todo cristão – católico ou não – e indica: “Eis a tua Mãe”! E o Evangelho diz qual deve ser a atitude do discípulo ante um dom tão generoso, tão belo, tão grande: “A partir daquele momento, o discípulo a levou para sua casa” (Jo 19,27). Todo discípulo de Cristo tem o dever de acolher o dom do Senhor, o dever de levar a Mãe de Jesus – agora Mãe de cada cristão – para sua casa. Não fazê-lo é desobedecer a um preceito expresso e claro do Senhor, é privar-se de tão grande dom! Por isso, mil vezes tem razão o povo brasileiro em orgulhar-se hoje de ter Maria por Mãe. Tem razão o nosso povo de tê-la proclamado Rainha e Padroeira do Brasil!

Quero consagrar, uma vez mais, nossa Arquidiocese aos pés da Virgem Santíssima. Virgem Mãe Aparecida, Mãe de Deus e nossa! Vela pelo povo brasileiro, acolhe nosso brado filial! Intercede com tua oração materna por nossos governantes: que sejam retos, justos, servidores do bem comum, sobretudo dos mais necessitados! Senhora Aparecida, protege a Santa Igreja em terras brasileiras! Roga pelo clero, pelos religiosos, por todo o povo de Deus! Ajuda-nos, Mãe de Deus-Jesus e Mãe nossa, ajuda-nos a construir um Brasil mais cristão, mais justo, mais pacífico e solidário… e que, pelas tuas preces maternas, jorre para nós o vinho bom da alegria e sejamos todos, um dia, herdeiros do Reino dos céus. Amém.

(*) Arcebispo da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro

Fonte:  Portal ArqRio

Liturgia do Dia – 12/10/2015

nossa senhora aparecida“A sensibilidade feminina reveste a liturgia da Palavra:  Ester intercede em favor do povo ameaçado; a mulher do Apocalipse gera o filho e o protege do mal;  Maria pede a Jesus pelos noivos e pelos convidados ao casamento.”

Primeira leitura:  Ester 5, 1-2;7,2-3

Salmo Responsorial:  44 (45)

Segunda leitura:  Apocalipse 12, 1.5.13.15-16

Evangelho:  João 2, 1-11

Liturgia do Dia – 11/09/2015

marcos 10, 17-30“Deixemo-nos penetrar e julgar pela Palavra de Deus, a qual não se reduz a leis e regras a serem cumpridas.  Ela é sabedoria que nos faz discernir entre o que é importante e o que deve ser deixado de lado no seguimento de Jesus.”

Primeira leitura:  Sabedoria 7, 7-11

Salmo Responsorial:  89 (90)

Segunda leitura:  Hebreus 4, 12-13

Evangelho:  Marcos 10, 17-30 ou 17-27